O “ 25 de Abril (segundo Vasco Pulido Valente)

 

O “25 de Abril” foi feito porque o exército, digo bem, o exército, (a Força Aérea e a Marinha não passaram de pequenos comparsas) não queria continuara a guerra. Os “capitães” (patente genérica) que se pronunciaram contra a ditadura não tinham um plano, ou sequer uma ideia, para o país. Normalmente pouco educados, se pensavam no assunto, era para partilhar os lugares-comuns “socializantes” da oposição urbana e estudantil. Por si só, o famoso “Programa do MFA”, incoerente e sumário, revela bem o vácuo para que se empurraram os portugueses, tanto aqui como em África. Como a seguir se constatou, ninguém mediu com seriedade, ou sensatez, as prováveis consequências do “Programa”. A irresponsabilidade típica entre militares, reinava. Pior ainda: como não se podia decentemente pôr um capitão ou major à frente do Estado, o MFA entrou numa aliança indefinida com o general Spínola e o General Costa Gomes. Megalómano e autoritário e, além disso, ignorante, Spínola “escrevera” um livro (de facto, escrito por oficiais da sua confiança), o Portugal eo Futuro, em que propunha uma “Comunidade Lusíada” ou coisa assim, e em que velhos preconceitos se misturavam a uma inconcebível imprudência e à mais vertiginosa estupidez. Logo do princípio existiram, portanto, dois programas, um pior que o outro, e duas facções. Faltava “sair (à rua)” e estabelecer o caos.

 A “Revolução de Abril”, como romântica e fraudulentamente lhe chama a esquerda, foi um mero pronunciamento clássico. Para quem não saiba: uma unidade ou grupo de unidades declara a sua oposição ao governo do dia (geralmente, mas não necessariamente, ocupando alguns lugares de importância estratégica – estradas, pontes, praças, portos, aeroportos, telégrafo, telefones, rádio, televisão e por aí fora) e, a seguir a esta desobediência activa, espera para ver o que decidem as forças militares fora da conjura. Se estas não marcham em massa contra os insurreptos, se não se mexem ou se aderem, o “golpe” ganhou. Manda a tradição que não haja violência. O pronunciamento é, como se dizia, um exercício de “contar espingardas”. Quase nenhuma espingarda se apresentou a defender Caetano e as que apareceram, examinada a situação, retiraram em paz. Só a Guarda Republicana, aqui e ali, resistiu algum tempo; não muito e não muito convictamente.

A revolução, propriamente dita, nunca existiu. Existiu, a partir de 28 de Setembro de 1974, uma tentativa, conduzida pelo Partido Comunista, para tomar conta do Estado e estabelecer pela força em Portugal um regime soviético.

“O 25 de Abril”, Diário de Notícias, 2004

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