Protesto Climático
Mais de 50 alunos bloqueiam escola pelo fim dos combustíveis fósseis (msn.com)
O uso de menores de idade como veículos de propaganda, embora seja claramente um abuso da inocência alheia, tornou-se desde há décadas um costume tão generalizado que, dessensibilizados pela repetição, já nem reparamos no que tem de imoral e criminoso. Começou, até onde é possível comprová-lo, na Revolução Francesa. Depois foi assimilado pelos anarquistas e comunistas que usavam garotos fanatizados para lançar bombas sobre os aristocratas. Esses movimentos tinham não somente um exército de recrutas facilmente governáveis, mas ainda a indiscutível vantagem publicitária do martírio infantil.
Em contrapartida, a indústria capitalista descobriu o emprego publicitário da candura infantil para a venda de toda a espécie de produtos: crianças posando em anúncios, funcionavam como emblemas, fortemente atractivos para a sentimentalidade popular, das qualidades excelsas que se desejava associar a determinados produtos.
Na década de 60, as seitas pseudomísticas, investindo de preferência no público juvenil, puderam contar não somente com reservas de credulidade quase inesgotáveis, mas também com a acção de solapamento com que a tagarelice adolescente ia minando os alicerces da confiança familiar, até fazer com que pais e mães, desesperados, acabassem por se render e assimilar, pelo menos parcialmente, toda a casta de novas crenças e manias, por bárbaras e imbecis que fossem, para tentarem salvar o que restasse da comunicação doméstica.
Porém o melhor veio a partir da década
de 80, quando praticamente todas as organizações empenhadas em qualquer tipo de
objetivos soi disant humanistas, libertários, educacionais, etc.,
adoptaram maciça e universalmente o uso do marketing infanto-juvenil, transformando, pela repetição universal, em costume legítimo e aceitável, aquilo que em épocas menos abjectas seria considerado repugnante.
Hoje em dia já não são partidos radicais nem
tubarões capitalistas que exploram o narcisismo infantil e a vaidade juvenil
como instrumentos de pressão para nos levar a fazer o que não queremos, a
comprar o que não precisamos, a renegar nossas crenças e valores mais ancestrais e a
adaptar-nos a quaisquer caprichos idiotas, para não sermos reprovados
socialmente e não nos tornarmos uns párias. Não: quem faz isso já não são organizações
subversivas, comerciantes inescrupulosos e seitas de excêntricos: são fundações
educacionais, são ONGs dirigidas por intelectuais de prestígio, são governos, são
organizações internacionais como a ONU e a Unesco — são,
enfim, aquelas entidades que professam precisamente defender os mais altos
valores humanos, entre os quais... os direitos das crianças e dos adolescentes.
Mas, se já é um desrespeito intolerável usar os jovens como instrumentos de campanhas de vasta envergadura, cuja origem desconhecem e cujas implicações mal imaginam, mais cruel ainda é que esse uso seja fundado, sempre e sistematicamente, na lisonja mais descarada à vaidade pretensiosa do público juvenil, de modo a dar a entender a essas hordas de mini-imbecis que nada está acima de sua compreensão, por mais imaturos e inexperientes que sejam; que não há assunto, por mais subtil e obscuro, no qual suas opiniões e desejos não devam, em última análise, prevalecer, pois, afinal, Morgen zu uns gehör ("O futuro pertence-nos" - refrão dum hino da juventude hitleriana).
E, por conta do brilhante futuro a
que são chamados, devem, por exemplo, ouvir a mensagem da casta intelectual, retransmitida
por professorazinhas semiletradas, e levá-la aos seus lares, onde imporão — mensageiros da modernidade — os
novos valores e critérios aos seus atónitos progenitores. Devem ler com atenção
devota os Direitos da Criança e do Adolescente e, ao chegar a casa,
reivindicar dos seus pais o cumprimento dos quesitos ali formulados, segundo a
interpretação que lhes deu o notório saber jurídico das suas mestras e a peculiar
acuidade jurisprudencial de meninos de oito anos. Devem receber os ensinamentos
morais transmitidos por espevitadas actrizes de TV — as
mais altas autoridades em questões de consciência, como se sabe — e de seguida repeti-los em família, até que pai e mãe,
temerosos de ser passados para trás, acabem por adoptar todo e qualquer puerilismo da moda como se fossem as novas Tábuas da Lei.
Olavo de Carvalho, Jardim das Aflições
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