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  Acordou aos primeiros alvores da madrugada; imerso no suor e no fedor, não pudera deixar de comparar esta nojenta viagem à sua própria vida que se desenrolara primeiro por planícies risonhas, depois escalara íngremes montanhas, passara através de gargantas ameaçadoras, para vir desembocar em intermináveis ondulações de uma única cor, vazias como o desespero. Estas fantasias da madrugada eram o que de pior podia acontecer a um homem de meia-idade; e, embora Dom Fabrizio soubesse que estavam destinadas a desvanecer-se com a actividade do dia, sofria agudamente com elas porque agora já as tinha experimentado suficientemente para saber que deixavam no fundo da alma um sedimento de mágoa   que, ao acumular-se dia a dia, acabaria por ser a verdadeira causa da sua morte. Il Gattopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa
  Das   palavras e do exemplo de Jesus Cristo não surge nenhum optimismo histórico, bem pelo contrário: “ Quando vier o Filho do Homem, ainda haverá Fé sobre a Terra?” (Lc 18, 8); “Será tão terrível a tribulação , como não houve nenhuma semelhante desde o princípio do mundo nem haverá jamais. E se esses dias não fossem encurtados   em atenção aos eleitos, ninguém se salvaria” (Mat24, 21).   Porque haveria a Igreja de esperar, no tempo histórico, algo melhor do que teve Cristo, que acabou os seus dias cruxificado?! Porém mesmo que esteja à espera de ser cruxificada pelo Anticristo, não o espera com pessimismo, porque esse será o momento de devolver ao seu Redentor o sinal mais puro doa amor, que é dar a vida pelo seu amigo. Ela sabe que neste aparente fracasso da carne há um verdadeiro triunfo do espírito e que enquanto conserve a disposição para o martírio, as portas do inferno (isto é, as potências correptoras do maligno) nunca triunfarão: “ No mundo tereis grande...
  Os passarinhos têm a lei natural gravada no seu coração e se os deixarmos em liberdade eles construirão ninhos para os seus filhos, como é próprio da sua natureza. Ora o Concílio Vaticano II entendeu que a lei natural também está impressa de forma semelhante no coração do homem e como, devido ao seu optimismo humanista, o Concílio esqueceu que o coração do homem está ferido pelo pecado original, pensou que basta deixá-lo em liberdade para que ele desate a construir em paz a sua casita e a fazer o bem. O único problema com esta crença é que é completamente errada. O homem é o único animal social que não nasce com instintos e que deve ser educado. Deve, justamente, receber a sua formação moral através dos ensinamentos da sabedoria, em conformidade com a prudência e demais virtudes. E a sabedoria não é um património pessoal de cada um, mas o bem mais universal e imutável dos bens criados. Não convém, pois, falar, como faz o concílio, em “formação da consciência”, como se cada ...
  Dissemos que o Concílio Vaticano II substituiu o Cristianismo (a Religião de Cristo) pelo humanismo (a religião do homem). O humanismo nasce no Renascimento e consiste na defesa de valores meramente humanos, os quais haviam sido, em certa medida, sacrificados pela alta espiritualidade do século XIII, idade de ouro da Cristandade. Com efeito a altíssima perfeição cristã (a Santidade), tem uma conotação necessariamente negativa do ponto de vista meramente humano, pois resume-se às três negações evangélicas: negação da riqueza (aconselha a pobreza); negação dos afectos do coração (aconselha a castidade); negação da vontade própria (aconselha a obediência). Depois de termos caído, com Pecado Original, na escravidão do mundo, do diabo, e da carne, o único caminho que se nos abre para a verdadeira liberdade, é o traçado por Nosso Senhor: o caminho da Cruz. Mas, quando os cristãos modernistas descobrem que para entrarem na Glória do Senhor têm de passar, com Ele, pela Sua Paixão e M...
  O Concílio Vaticano II, socialmente e com carácter oficial, cometeu o mesmo pecado que comete o religioso que, deixando de viver para Cristo, começa a olhar para si próprio. De Facto, Paulo VI e João Paulo II definiram muitas vezes o Concílio como uma “tomada de consciência” que a Igreja fez de si mesma; como se até então a Igreja tivesse andado esquecida do seu próprio ser. Se bem que esta maneira de falar seja característica do psicologismo do pensamento moderno, não deixa de ter marcada correspondência com o que se passou no Concílio. Com efeito, o verdadeiro religioso deve viver esquecido de si próprio e voltado totalmente para Nosso Senhor; e a sua fé ficará em risco se começar a prestar atenção a si mesmo. Este foi, precisamente o pecado do Concílio: deixar de se orientar para Deus e volver um olhar satisfeito para a sua própria humanidade. Se é certo que a nossa humanidade foi feita à imagem e semelhança de Deus, ai de nós se o nosso coração se detiver na “imagem” e não se...
  De um modo muito esquemático pode-se dizer que o humanismo nasceu, no século XIV, duma rejeição da autoridade doutrinal e moral da Igreja. Mas, como sem autoridade nenhuma sociedade subsiste, à medida que se foi destruindo a autoridade da Igreja, foi-se tentando fundar um novo tipo de autoridade a que se pode chamar moderna. Se se atribuir a origem deste Processo a Marsílio de Pádua e a sua maturação a Maquiavel, não se andará muito longe da verdade. O primeiro inverteu a relação entre o poder político e o eclesiástico, na ordem temporal, justificando a existência de uma autoridade política livre de qualquer subordinação ao magistério da Igreja. O segundo vai levar o processo ao seu termo libertando o poder político das restrições de quaisquer princípios doutrinais ou morais. Acontece que o exercício maquiavélico do poder, necessita duma justificação que disfarce a sua brutalidade e crueza aos olhos dos mais ingénuos. E assim nasceu o sofisma democrático que mais não é que uma ...
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  “Para mortificar e manter em perfeita calma as quatro paixões naturais (prazer, ambição, temor e dor), de cuja paz e tranquilidade nascem inumeráveis bens, o remédio universal é o seguinte - o qual é fonte de mérito imenso e de grandes virtudes: A alma deve ser propensa: não ao mais fácil, mas ao mais difícil; não ao mais saboroso, mas ao mais insípido; não mais deleitoso mas ao mais desagradável; não ao que consola, mas ao que desconforta; não ao repouso, mas à fadiga; não ao mais, mas ao menos; não às coisas nobres e preciosas, mas às mais vis e desprezíveis; não a querer alguma coisa, mas a não querer nada. Não procure a alma para si o que há de melhor nas coisas, mas o que há de pior; e deseje por amor a Cristo ser pobre, nua e vazia de tudo o que existe neste mundo.” São João da Cruz, Subida , XIII, 4-5.   Eis como Santa Teresa nos apresenta a atmosfera da contemplação: “ os que caminham por esta via, não levam uma cruz mais leve, e ficaríeis cheias de espanto a...