O primeiro
efeito da luxúria é, segundo S. Tomás, a Cegueira Mental. Segundo ele, capacidade do intelecto apreender um fim como
bom, é diminuída pela luxúria.
O intelecto
tem como fim natural a apreensão da Verdade. A Verdade é um transcendental, tal
como o Bem. Quer isto dizer que, segundo a Doutrina dos Transcendentais
defendida pelo Doutor Angélico, a Verdade e o Bem são a mesma coisa vista de
pontos de vista diferentes. Sendo assim o nosso, intelecto tem por seu fim
natural apreensão tanto da Verdade como do Bem.
É um facto
facilmente observável, mesmo não se sendo um Filósofo Aritotélico-Tomista (A-T),
que se obtivermos prazer com uma determinada actividade, temos tendência para
considerá-la boa mesmo que na realidade não o seja; e que quando, por qualquer
motivo, gostamos de uma determinada ideia sentimo-nos inclinados a considera-la
verdadeira e razoável mesmo quando na realidade não o é:
Assim, um
alcoólico ou um cocainómano obtêm um prazer tão intenso do seu vício que se
recusam a ouvir quem os adverte do mau caminho que estão a seguir; um
intelectual pode estar tão apaixonado pela sua teoria de estimação que
procurará apenas os factos que a confirmem e não atenderá aos factos que
gritantemente a contradigam; o putativo escritor sem talento está tão obcecado
com a expectativa de fama e riqueza futuras que não percebe que deveria
enveredar por outra carreira.
Ou seja, é
um facto observável no dia-a-dia que o prazer associado a algo que é mau ou
falso impede-nos de ver essa realidade.
No que diz
respeito ao sexo, não há motivo para que as coisas se passem de modo diferente.
Na verdade, como realça S. Tomás, é exactamente a extraordinária intensidade do
prazer sexual que lhe confere uma especial propensão para toldar a nossa
capacidade de discernir o que é bom e verdadeiro do que é mau e errado.
Quanto mais
frequentemente alguém cair na tentação de praticar actos sexuais desordenados,
tanto mais difícil lhe será compreender a desordem desses mesmos actos e isto
porque, o prazer repetidamente obtido suscitará nessa pessoa uma falsa
aparência de bem.
Não tardará
que comece a procurar razões para se justificar e autoconvencer da bondade de
tais actos ou pelo menos da sua inocência e tornar-se-á surdo a todas as razões
que contrariem essa sua inclinação.
Ou seja, a
condescendência com comportamentos sexuais desordenados embota tendencialmente
a nossa capacidade para discernir entre o bem e o mal especialmente no que
respeita à própria moral sexual.
Não é
preciso ser um filósofo A-T para ver que propensão exagerada para o prazer
sexual cega as pessoas para as consequências nefastas que daí possam advir.
Os exemplos
do dia-a-dia são legião: desde o patrão ou professor lascivos que perseguem
sexualmente os subordinados ou alunos apesar dos riscos para a sua carreira e
estabilidade familiar; até à mulher que se deixa convencer que, o homem casado
com quem tem relações, vai deixar, por ela, a família; passando pelo viciado em
pornografia que se recusa a admitir que está efectivamente viciado.
Claro que os
tomistas consideram sexualmente desordenadas muitas coisas que não são vistas
como tal nos nossos dias pela maioria das pessoas. Do ponto de vista A-T tal
resulta em parte do erro intelectual reinante.
Porque, ao
contrário do que a maioria das pessoas actualmente pensa, se atendermos ao
enquadramento metafísico subjacente à Moral Católica Tradicional/Direito Natural
Clássico — essencialismo, teleologismo, etc. — é absolutamente óbvio (como, nos capítulos anteriores demonstramos) que a moral sexual tradicional é perfeitamente razoável e
até dificilmente evitável, sendo o seu enquadramento metafísico perfeitamente
defensável, quando correctamente entendido.
O problema é
que, no mundo contemporâneo, até mesmo a nível universitário, ninguém conhece
os fundamentos racionais da MCT/DNC, ou então conhece apenas caricaturas
básicas dos mesmos.
Mas, o mais grave, é que do ponto de
vista A-T, não estamos apenas perante um simples erro intelectual. Porque não
se trata apenas de, a nível intelectual, a maioria das pessoas na sociedade
ocidental contemporânea não concordar com a Moral Sexual Tradicional no que
respeita ao que deve ou não deve ser considerado desordenado. O grande problema
reside no facto de a maioria das pessoas, do ponto de vista da Moral Sexual
Tradicional, actuar desordenadamente, a este nível. E tendo este tipo de
comportamento uma forte propensão para obnubilar a nossa capacidade para
discernir o bem do mal, especialmente no que ao sexo diz respeito, segue-se que
a generalizada rejeição da Moral Sexual Tradicional tem muito a ver com aquela
corrupção cognitiva a que S. Tomás chama Cegueira Mental.
Que, quem não se comporta segundo as normas da Moral Sexual Tradicional, não entenda também que essas normas têm um fundamento racional sólido, não é de todo surpreendente. Pelo contrário, é exactamente o que o Doutor Angélico previu.
É a esta luz que temos de ver a recusa, da maioria dos filósofos e académicos contemporâneos (e, até, de muitos prelados modernistas), de considerarem sequer os argumentos da Moral Católica Tradicional/Direito Natural Clássico em defesa da Moral Sexual Tradicional. Para eles, nem vale a pena dar qualquer crédito a tais argumentos porque sabem à partida não passarem de meros “preconceitos de fanáticos”.
Mas, este
tipo de atitude, tão generalizada, tem o problema de ser completamente
falaciosa. Porque o bus ilis da questão é precisamente saber se a Moral Sexual
Tradicional é racionalmente defensável ou é apenas preconceituosa; ora, afirmar
simplesmente que os seus defensores são preconceituosos e fanáticos não chega a
ser um argumento; não passa de uma falácia ad hominem.
E, cereja no
topo do bolo (ou, melhor, fel no fundo do copo), no mundo contemporâneo, a
cegueira mental, é fortemente exacerbada por uma cultura hiper-sexualizada e
pela pornografia moderna que envolvendo imagens de pessoas reais praticando
actos reais, intensifica e torna vívidas as fantasias sexuais onanísticas,
enquanto, através da perfeição dos corpos, da variedade dos actos praticados e
da promiscuidade exibida, nos afasta do que na realidade será sexualmente
pretendido por um parceiro real; o consumidor de pornografia terá forte
tendência para ficar obcecado com expectativas irrealistas e actos sexuais
ilícitos e dificilmente se satisfará com uma relação normal com uma pessoa
real.
E quanto
mais essa obsessão com desejos irrealistas e ilícitos se tornar como que uma
segunda natureza, tanto mais essa pessoa perderá a noção do que é natural (em sentido
relevante) no que ao sexo diz respeito. Os sentimentos naturais de repulsão
perante certos actos ilícitos ir-se-ão esbatendo, assim como a vontade e a
capacidade para pensar objectivamente acerca da moralidade dos actos a que se
deixou apegar.
Como o sociologista Mark Regnerus, sugeriu, a pornografia contemporânea, da qual não
há precedente histórico, através da sua prevalência e seu conteúdo excessivo,
foi crucial para a liberalização das atitudes em relação à moral sexual.
A cultura
moderna, fortemente sexualizada e "pornificada", transformou a
cegueira mental, de que fala o Doutor Angélico, num fenómeno de massas. Milhões
sobre milhões de seres humanos tornaram-se psicologicamente agarrados a
atitudes de maior ou menor imoralidade sexual. A sociedade moderna ocidental
transformou-se numa Caverna de Platão com imagens obscenas, em vez de sombras,
continuamente passando em frente dos seus olhos.
Esta
cegueira massificada provoca, por sua vez, outros tipos graves de imoralidade:
Milhões de
crianças, por todo o mundo, estão encurraladas na pobreza por terem sido
concebidas fora do casamento.
E, milhões
de crianças são abortadas.
A fornicação
generalizada produz, pois, milhões de crianças pobres e milhões de crianças
mortas.
A pobreza e
o aborto seriam certamente muito menos comuns se a fornicação e a cultura
híper-sexualizada fossem fortemente estigmatizadas como até, nas sociedades tradicionais, eram.
Estranhamente,
aos modernos, embora tenham forte propensão para estigmatizar tudo e mais alguma
coisa — tabaco, linguagem politicamente incorrecta, etc. — e sejam fortemente
sentimentais no que diz respeito às crianças, nunca lhes passou pela cabeça
estigmatizar a fornicação e a cultura híper-sexualizada em prol do bem-estar
dessas mesmas crianças.
Estão tão
obcecadas pelo estúpido cliché de que "o que cada um faz no seu quarto não
afecta mais ninguém", que simplesmente não conseguem ver o que historicamente era
absolutamente óbvio para a maioria dos seres humanos — que a imoralidade sexual
tem, de facto, um impacto terrível nos membros mais frágeis da sociedade.
Nos nossos
dias, chegou-se a um estado de inversão tal que as nossas capacidades sexuais
que, de seu natural, têm por fim a geração, protecção e educação de novas
crianças, pelo contrário estão a levar ao assassinato, ao abandono e ao empobrecimento em
massa dessas mesmas crianças.
Ora isto é,
em sentido próprio, perverso.
E demonstra
como o prazer sexual desregrado pode ser terrivelmente nocivo
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