A Gnose
apresenta várias formas. Na sua vertente mais intelectual, procura penetrar
especulativamente o mistério da criação e da existência. Já a gnose volitiva,
voltada para a acção e para o primado da praxis, pretende redimir a condição
humana através duma alteração radical do homem e da sociedade que conduza ao
advento de um paraíso terrestre.
A
especulação gnóstica, ínsita nas ideologias materialistas modernas, pretende
ter vencido as incertezas da fé e da transcendência, transforma a actividade
civilizadora num trabalho místico de auto-salvação, ao desviar a força
espiritual da alma - que no cristianismo se devotava à santificação da vida -
para a criação de um almejado paraíso terrestre.
A
"verdade" do gnosticismo fica, pois, viciada ab initio por esta
imanentização falaciosa da escatologia cristã, ou seja, pela substituição do
objectivo cristão da salvação eterna da alma pessoal pela pretensão de
“salvação” terrestre da humanidade como um todo.
Com base
nessa falácia, os pensadores, líderes e seus seguidores gnósticos, interpretam
uma dada sociedade concreta e a sua ordem como estando a caminho dos “amanhãs que
cantam” da “sociedade do bem-estar absoluto”, etc.; e, na medida em que aplicam
esta sua construção falaciosa aos problemas sociais concretos, acabam por ter
uma representação errónea da estrutura da realidade.
Por outras
palavras, a interpretação escatológica da História resulta numa falsa imagem da
realidade; e, os erros relativos à estrutura da realidade, acabam
inevitavelmente por ter efeitos práticos quando se faz dessa falsa concepção a
base da acção política.
Mais,
especificamente a falácia gnóstica, com a sua noção de progresso infinito,
destrói a mais antiga sabedoria da humanidade no que respeita ao ritmo de
crescimento e declínio que constitui o destino de todas as coisas de baixo do
sol.
O que nasce, um dia terminará; e o mistério
desse fluxo do ser é impenetrável. Estes são os dois grandes princípios que
regem a existência.
Assim, o
gnosticismo - na prática, todas as ideologias modernas -, acaba por produzir
aquilo a que se poderia chamar de contra princípios, em oposição aos reais
princípios da existência; e, na medida em que esses contra princípios determinam
uma dada imagem da realidade, aos que neles crêem, geram um mundo de fantasia
que nos nossos dias, é a grande força social motivadora das actitudes e acções
das massas gnósticas e dos seus representantes.
Tudo isto,
determina nas sociedades predominantemente gnósticas, um novo padrão de
comportamento que se traduz numa inclinação para não levar em conta a estrutura
da realidade, para se deixar envolver pela "doçura da existência”, pela
ocultação da realidade do sofrimento e da morte, pelo declínio da moralidade
cívica, pela cegueira perante os mais óbvios perigos e pela relutância em os
enfrentar com seriedade.
Nas sociedades
gnósticas, o não reconhecimento da realidade, torna-se uma questão de
princípio.
Uma
ilustração mostrará a natureza desta dificuldade. Nas éticas clássica e cristã,
a primeira das virtudes morais era a sophia ou prudência , porque, entendia-se
que sem uma compreensão adequada da estrutura da realidade, incluindo da
conditio humana, se tornava impossível a acção moral e a respectiva coordenação
racional entre os meios e os fins.
No mundo de
sonho gnóstico, pelo contrário, o não reconhecimento da realidade, como vimos,
constitui o primeiro princípio. Por conseguinte os tipos de acções que seriam
considerados moralmente insanos no mundo real, devido aos efeitos reais que
deles resultam, serão considerados morais no mundo de fantasia, porque visam
efeitos inteiramente diversos.
A
interpretação da insanidade moral como moralidade e da sophia ou prudência como
imoralidade, leva a uma confusão difícil de desfazer. E, a tarefa é ainda
dificultada pela afoiteza dos sonhadores gnósticos em estigmatizarem, como
imoral, qualquer tentativa de obter um esclarecimento crítico.
Na verdade, praticamente todos os pensadores
políticos que reconheceram a estrutura da realidade foram caracterizados como
imorais pelos intelectuais gnósticos, chegando-se ao extremo ridículo de alguns
liberais apelidarem Platão e Aristóteles de fascistas.
Esta
identificação do sonho com a realidade, como questão de princípio, produz
efeitos práticos que podem parecer estranhos, mas que são sempre expectáveis;
porque abandonando-se o estudo crítico da relação causa efeito na História,
torna-se impossível conseguir uma coordenação racional dos meios e dos fins na
política.
As
sociedades gnósticas e os seus líderes até são capazes de reconhecer os perigos
que ameaçam a sua existência quando surgem, mas tais perigos não são
enfrentados por meio de acções apropriadas, no mundo da realidade. São, isso
sim, enfrentados mediante o recurso a operações mágicas no mundo da fantasia,
tais como, propaganda, manifestações de desaprovação, condenações morais,
declarações de intenção, resoluções, apelos à opinião das maiorias e da
humanidade em geral, demonização dos adversários e a sua caracterizações como
agressores, “reaccionários”, etc., manifestações de pacifismo e apelos à paz
mundial, anseios por um governo mundial, etc., etc..
A corrupção
moral e intelectual que se expressa no somatório dessas operações mágicas pode
impregnar toda uma sociedade da atmosfera estranha e fantasmagórica de um
verdadeiro manicómio, tal como a que experimentamos na crise do ocidente dos
nossos dias.
A política
gnóstica é, por isso mesmo auto destrutiva, no sentido em que as suas medidas
que visam manter a paz e a ordem – as operações mágicas acima descritas –
aumentam as perturbações e conduzem sempre a mais conflitos e mesmo à guerra,
pois que, se uma perturbação incipiente do equilíbrio não for contrabalançada
por uma acção política adequada, no mundo da realidade, e se, pelo contrário,
for enfrentada por meio de feitiços, tende a atingir tais proporções que o
recurso ao conflito, à opressão e à guerra se torna inevitável.
Como, ex
definitione, é impossível transfigurar a natureza humana e estabelecer o
paraíso terrestre, os gnósticos, na persecução de tais objectivos, mergulham
numa dinâmica de revolução permanente e quando alcançam o poder, tendem a criar um Estado omnipotente que
elimine implacavelmente todas as forças de resistência - e, principalmente, os
próprios gnósticos que se tornaram incómodos – e cale todo o debate crítico
acerca da “verdade” gnóstica de que se declaram os únicos representantes.
Vista por
este prisma, as revoluções nacional-socialista e comunista, não foram mais que
manifestações da modernidade por excelência, em todo o esplendor do seu
materialismo económico, da sua psicologia corrupta, do seu cientificismo
tacanho, da sua biologia racista e da sua crueldade tecnológica.
Nos nossos
dias, tudo tende a confirmar que a modernidade não é mais que um tumor que se
expandiu dentro da sociedade ocidental, por oposição à tradição clássica e
cristã fazendo nascer o receio de que o sonho gnóstico tenha corroído tão
profundamente a sociedade ocidental a ponto de tornar impossível qualquer
política racional, estabelecendo um estado de conflito permanente, que torna
necessário o recurso a uma crescente opressão estatal e à guerra, como os
únicos instrumentos capazes de ajustar as perturbações no equilíbrio das forças
existenciais.
Um fenómeno desta magnitude, não pode ser
explicado pela simples ignorância ou falta de inteligência, mas por questões de
princípio, com base em premissas gnósticas fantasiosas acerca da natureza do
Homem e da referida misteriosa evolução da humanidade rumo à paz, à igualdade e
ao bem-estar universais.
Assim, a
política gnóstica é autodestrutiva na medida em que a sua negligência para com
a estrutura da realidade leva ao conflito contínuo que só pode terminar de duas
maneiras. Ou resultará em destruições horríveis e nas concomitantes
modificações revolucionárias da ordem social; ou a mudança natural das gerações
conduzirá ao fim do sonho gnóstico antes que aconteça o pior - embora tal se
revele sumamente difícil enquanto continuarem a ser estigmatizados como
reaccionários, o reconhecimento da estrutura da realidade, o cultivo das
virtudes da sophia e da prudência, a disciplina do intelecto e o
desenvolvimento da cultura teórica e da vida do espírito».
Eric Voegelin, The New Science of Politics
Comentários
Enviar um comentário