INTELIGÊNCIA e VERDADE; FÉ, ESPERANÇA e CARIDADE
Se definimos
a inteligência como a capacidade humana de captar o que é verdade, também
entenderemos que o essencial do ser humano, aquilo que o diferencia dos
animais, não é o pensamento, não é a razão, nem uma imaginação ou memória
excepcionalmente desenvolvidas, embora tudo isto exista efectivamente no ser
humano.
Pois pensar, um macaco também pensa: ele
completa um silogismo e até encadeia silogismos num raciocínio relativamente
perfeito. Imaginação, até um gato possui: os gatos sonham. Por este caminho não
encontraremos a diferença específicamente humana, aquilo que nos torna homens
em vez de bichos. E, se é importante arraigar o homem no reino animal, para não
fazer dele um ser angélico sem pés no solo, também é importante saber
distingui-lo de uma tartaruga ou de um molusco por alguma diferença que não
seja meramente quantitativa e acidental.
O que nos
torna humanos é o facto de que a tudo aquilo que imaginamos, raciocinamos e
recordamos, sermos capazes de o ver como um conjunto e, com relação a este
conjunto, podermos dizer um sim ou um não, podermos dizer: “É verdadeiro”, ou:
“É falso”. Sermos capazes de julgar a veracidade ou falsidade de tudo aquilo
que a nossa própria mente vai conhecendo ou produzindo, e isto não há animal
que possa fazer.
A
inteligência, em suma, é o senso da verdade, e uma inteligência apta, hábil ou
forte é uma inteligência que está acostumada a discernir a verdade da falsidade
em todas as circunstâncias da vida, a aceitar a verdade e permanecer nela.
Com isto
quero dizer que a inteligência não se esgota no mero aspecto cognitivo: se a
potência de conhecer a verdade constitui a semente da inteligência, esta
semente só floresce por iniciativa da vontade, e também pela vontade ela pode enfraquecer
e morrer.
Vontade significa o exercício da liberdade.
Quando alguém capta que algo é verdadeiro, significa que aceitou que aquilo é
verdadeiro, e quando capta que é falso, significa que o rejeitou. Ora, quem
aceita ou rejeita não é uma faculdade em particular, mas é o sujeito inteiro,
num acto de vontade livre. Isto significa que a inteligência é
indissoluvelmente a síntese de uma aptidão cognitiva e de uma vontade de
conhecer.
Se houvesse um ensinamento voltado ao
desenvolvimento da inteligência, ele teria de, antes de mais nada, acostumar o
aluno a desejar a verdade em todas as circunstâncias e a não fugir dela.
Portanto o exercício da inteligência possui
necessariamente um lado ético, moral.
Platão
dizia: “Verdade conhecida é verdade obedecida.”
Se a
inteligência fosse uma faculdade puramente cognitiva, nada impediria que ela
fosse exercida igualmente bem pelos bons e pelos maus, pelos sinceros e pelos
fingidos, pelos honestos e pelos safados.
Na realidade
as coisas não se passam assim, e a desonestidade interior produz
necessariamente o enfraquecimento da inteligência, que acaba por ser
substituída por uma espécie de astúcia, de maldade engenhosa. Esta astúcia não
consiste em captar a verdade, mas em captar — sem dúvida com veracidade — qual
a mentira mais eficiente em cada ocasião. O astucioso é eficaz, mas está
condenado a falhar ante situações das quais não possa se safar mediante algum
subterfúgio, que exijam um confronto com a verdade.
Esta conexão entre a inteligência e a bondade
sempre foi reconhecida por todos os grandes filósofos do passado, do mesmo modo
que a correspondente ligação, do lado do objecto, entre a verdade e o bem.
Um mundo que nega essa conexão, que faz da
inteligência uma faculdade “neutra”, capaz de funcionar tão bem nos bons quanto
nos maus como a respiração ou a digestão, é um mundo francamente mau, que se
orgulha da sua maldade como de uma conquista da ciência, pela qual tem a
presunção de se ter elevado acima das civilizações do passado.
Mauriac notava, “nos seres decaídos, essa
destreza para embelezar sua decadência, é a derradeira enfermidade a que o
homem pode chegar: quando a sua própria miséria o deslumbra como um diamante”.
A conexão a
que me refiro surge com peculiar clareza quando examinamos os seguintes factos:
Com frequência as nossas acções não são
acompanhadas de palavras que as expliquem, nem mesmo interiormente; ou seja,
somos capazes de agir de determinadas maneiras e, no entanto explicar esses actos
de maneiras exactamente inversas, precisamente porque as motivações
verdadeiras, permanecendo não-expressas e mudas, se furtam ao nosso julgamento
consciente.
Isso faz com que, pelo menos
subconscientemente, alimentemos um discurso duplo. A partir do momento em que
você admite que uma coisa é verdadeira, mas procede, mesmo que em segredo,
mesmo que só interiormente, como se ela não o fosse, está mantendo um discurso
duplo: num plano afirma uma coisa, e noutro afirma outra coisa.
A verdade tem poucas oportunidades de surgir
para nós com toda a clareza, e a mente humana funciona de uma forma que, quando
negamos uma determinada informação, o subconsciente suprime todas as
informações análogas, de modo que, quando dizemos para nós mesmos uma
determinada mentira que nos é conveniente, por motivos práticos ou
psicológicos, ou para nos preservarmos de sentimentos desagradáveis, no mesmo
instante em que suprimimos essa informação suprimimos também uma série de
outras que nos seriam úteis e que não não tencionávamos suprimir.
Por isto a mentira interior é sempre danosa para
inteligência: é um escotoma que alastra até escurecer todo o campo da visão e o
substituir por um sistema completo de erros e mentiras.
Quando nos
habituamos a suprimir a verdade com relação às nossas memórias, à nossa
imaginação, aos nossos sentimentos e actos, esta supressão nunca fica só
naquele sector onde mexemos, mas alastra-se para outros territórios à volta e,
tornando-nos incapazes de inteligir uma determinada coisa, tornamo-nos
incapazes para inteligir muitas outras também.
A defesa contra verdades incómodas
transforma-se também numa defesa contra a verdade em geral, contra todas as
verdades.
Mais tarde, quando desejarmos estudar um
determinado assunto que nos interessa, ou entender o que está se passando na
nossa vida, e não conseguirmos, dificilmente perceberemos que fomos nós mesmos
que causamos esta lesão da inteligência.
Noto em muitos intelectuais de hoje uma
repugnância, uma defesa instintiva contra a verdade, a tal ponto que, mesmo
quando a desejam aceitar, tem de a embrulhar num invólucro de mentiras. O pior,
nisso, é que com frequência essa lesão é compensada por um desenvolvimento
hipertrófico das faculdades auxiliares (capacidade de raciocínio, memória,
etc.) numa inútil excrescência ornamental, tal como os seios que crescem em
algumas mulheres após a menopausa. Muitas dessas inteligências lesadas alcançam
sucesso nas profissões intelectuais.
A busca
sincera vai das verdades humildes e corriqueiras às verdades supremas,
aceitando aquelas como caminho para estas, sem exigir desde logo,
despoticamente, as respostas finais a todas as perguntas.
Um exemplo
de verdade humilde, porém segura, firme, da qual podemos partir como um modelo
para avaliar outras possíveis verdades, é dado por aquilo que sabemos — e que
só nós próprios sabemos — a respeito da nossa própria história, sobretudo da
história interior dos nossos sentimentos, motivações, desejos, etc.
Se houvesse
um ensinamento voltado para o desenvolvimento da inteligência, ele teria de
começar por propor ao aluno uma espécie de revisão das suas memórias, ou seja,
contar correctamente toda a sua vida (analogamente ao que se faz numa confissão
geral).
Mas, um
homem tem de estar livre de toda fiscalização externa para ter a certeza de que
olha para si mesmo e não para um papel social — e só então pode fazer um
julgamento totalmente sincero. Somente aquele que é senhor de si é livre — e
ninguém é senhor de si se não aguentar olhar, sozinho, para dentro de seu
próprio coração. Mesmo a conversa mais franca e a confissão mais espontânea não
substituem esse exame interior, porque, aliás, só valem quando são expressões
dele, não efusões passageiras, induzidas por uma atmosfera casualmente
estimulante ou por uma sinceridade vaidosa.
Mais ainda,
não é apenas a dimensão moral da consciência que se desenvolve nesse confronto:
é a consciência inteira — cognitiva, estética, práctica. Pois ele é ao mesmo
tempo aproximação e distanciamento: é o julgamento solitário que cria a
verdadeira intimidade do homem consigo mesmo e é também ele que cria a
distância, o espaço interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos
adquiridos são assimilados, aprofundados e personalizados.
Sem esse espaço, sem esse “mundo” pessoal
conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações entram
e saem — como os alimentos — transformadas em detritos. Ora, nem todos os seres
humanos foram brindados pela Providência com a percepção espontânea e o
julgamento certeiro de seus pecados. Sem esses dons, o anseio de justiça
perverte-se em culpabilização projectiva dos outros e em “racionalização” (no
sentido psicanalítico do termo). Quem não os recebeu à nascença tem de
adquiri-los pela educação.
A educação moral, pois, consiste menos em dar
a decorar listas do certo e do errado do que em criar um ambiente moral
propício ao auto-exame, à seriedade interior, à responsabilidade de cada um
saber o que fez quando não havia alguém olhando.
Durante dois milénios, um ambiente assim foi
criado e sustentado pela prática cristã do “exame de consciência”. Há
equivalentes dela em outras tradições religiosas e místicas, mas nenhum na
cultura laica contemporânea.
E, à medida que a sociedade se descristianiza,
essa referência dissolve-se e as técnicas clínicas tendem justamente a produzir
o efeito oposto: a abolir o sentimento de culpa, trocando-o ora por um
endurecimento egoísta confundido com “maturidade”, ora por uma adaptabilidade
auto-complacente, desfibrada e desprezível, confundida com “sanidade”.
O primeiro
grau na aprendizagem da verdade consiste, pois, em aprender a reconhecer
aquelas verdades que só o próprio sabe e que ninguém, a não ser ele, pode
confirmar ou negar. Por exemplo, só você conhece suas intenções, só você
conhece os actos que praticou em segredo, só você conhece os sentimentos que
não confessou. Você, nesses casos, é a única testemunha, e é aí que você vai
conhecer a diferença radical e intransponível entre verdade e falsidade.
As pessoas que vivem negando a existência de
verdades não conhecem essa experiência, nunca deram senão falso testemunho de
si mesmas ante o tribunal da consciência, mentem para si mesmas e por isto
sentem que tudo no mundo é mentira.
A diferença
entre a técnica cristã e os seus sucedâneos modernos é que ela sintetizava,
numa mesma vivência dramática, a dor da culpa e a alegria da completa
libertação — e isto as “éticas leigas” não podem fazer, justamente porque lhes
falta a dimensão do Juízo Final, da confrontação com um destino eterno que,
dando a essa experiência uma significação metafísica, elevava o anseio de
responsabilidade pessoal às alturas de uma nobreza de alma com o qual as
exterioridades da “ética laica” não podem nem mesmo sonhar.
Há dois
séculos a cultura moderna vem fazendo o que pode para debilitar, sufocar e
extinguir na alma de cada homem a capacidade para essa experiência suprema, na
qual a consciência de si é exigida ao máximo e na qual — somente na qual —
alguém pode adquirir a autêntica medida das possibilidades e deveres da
condição humana.
A “ética laica”, a “educação para a cidadania”
é o que sobra no exterior quando a consciência interior se cala e quando as
acções do homem já nada significam além de infracções ou obediências a um
código de convencionalismos e de interesses casuais.
“Ética”, aí, é pura adaptação ao exterior, sem
outra ressonância íntima senão aquela que se possa obter pela internalização
forçada de slogans, frases feitas e palavras de ordem.
“Ética”, aí,
é o sacrifício da consciência no altar da mentira oficial do dia.
A
inteligência não é, no fundo, senão o comprometimento da pessoa inteira no
exercício do conhecer, mediante uma livre decisão da responsabilidade moral.
Daí que ela seja também a base da integridade pessoal, quer no sentido ético,
quer no sentido psicológico.
Todas as
neuroses, todas as psicoses, todas as mutilações da psique humana se resumem,
no fundo, a uma recusa de saber. São uma revolta contra a inteligência.
Revoltas
contra a inteligência — psicoses, portanto, à sua maneira — são também as
ideologias e filosofias que negam ou limitam artificiosamente o poder do
conhecimento humano, subordinando-o à autoridade, ao condicionamento social, ao
beneplácito do consenso académico, aos fins políticos de um partido, ou, pior
ainda, subjugando a inteligência enquanto tal a uma de suas operações ou
aspectos, seja a razão, seja o sentimento, seja o interesse prático ou qualquer
outra coisa.
É claro que, para cada domínio especial do
conhecimento e da vida, uma faculdade em particular se destaca, ainda que sem
se desligar das outras: o raciocínio lógico nas ciências, a imaginação na arte,
o sentimento e a memória no conhecimento de si, a fé e a vontade na busca de
Deus.
Mas, sem a inteligência, o que é cada uma
dessas funções, ou a justaposição mecânica de todas elas, senão uma forma
requintada de fetichismo? O que é uma imaginação que não intelige o que
concebe, um sentimento que não se enxerga a si mesmo, uma razão que raciocina
sem compreender, uma fé que aposta, cegamente, sem a visão clara dos motivos de
crer? São cacos de humanidade, jogados num porão escuro onde cegos tacteiam em
busca de vestígios de si mesmos.
Toda “cultura” que se construa em cima desse
equívoco não será jamais senão um monumento à miséria humana, um macabro
sacrifício diante dos ídolos.
Só o inteligir, assumido como estatuto
ontológico e dever máximo da pessoa humana, pode fundamentar a cultura e a vida
social.
Quando
Cristo disse: “Na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis
amar”, ensinou, da maneira mais explícita, que os sentimentos não são guias
confiáveis da conduta humana. Antes de podermos usá-los como indicadores do
certo e do errado, temos de lhes ensinar o que é certo e errado. Os sentimentos
só valem quando subordinados à razão e ao espírito.
Razão não é só pensamento lógico: reduzi-la a
isso é uma idolatria dos meios acima dos fins, que termina num fetichismo
macabro. Razão é o senso da unidade do real, que se traduz na busca da coesão
entre experiência e memória, percepções e pensamentos, actos e palavras etc.
A capacidade lógica é uma expressão parcial e
limitada desse senso. Também são suas expressões o senso estético e o senso
ético: o primeiro anseia pela unidade das formas sensíveis, o segundo pela
unidade entre saber e agir. Tudo isso é razão.
Espírito é
aquilo que inspira a razão a buscar a chave da unidade da visão do mundo no
supremo Bem de todas as coisas, e não num detalhe acidental qualquer, tomado
arbitrariamente como princípio de explicação universal, como algumas escolas
filosóficas fazem com a linguagem, outras com a história, outras com o
inconsciente etc. O espírito é o topo do edifício da razão, que por ele se abre
para o sentido do Bem infinito, libertando-se da tentação de enrijecer-se num
fetichismo trágico ou utópico. Nem a razão nem o espírito se impõem. Só nos
abrimos a eles por livre vontade.
A abertura para a razão vem essencialmente da
caridade, do amor ao próximo, pelo qual o homem renuncia a impor seu desejo e
aceita submeter-se ao diálogo, à prova, ao senso das proporções e, em suma, ao
primado da realidade. A abertura para a razão é educação. Educação vem de ex
ducere, que significa levar para fora. Pela educação a alma se liberta da
prisão subjectiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre
para a grandeza e a complexidade do real. A meta da educação é a conquista da
maturidade. O homem maduro — o spoudaios de que fala Aristóteles — é aquele que
tornou sua alma dócil à razão, fazendo da aceitação da realidade o seu estado
de ânimo habitual e capacitando-se, por esse meio, a orientar sua comunidade
para o bem.
Este ponto é crucial: ninguém pode guiar a
comunidade no caminho do bem antes de tornar-se maduro no sentido de
Aristóteles. Líderes revolucionários e intelectuais activistas são apenas
homens imaturos que projectam sobre a comunidade seus desejos subjectivos, seus
temores e suas ilusões pueris, produzindo o mal com o nome de bem.
A abertura
ao espírito é um acto de confiança prévia no bem supremo da existência, acto
sem o qual a razão perde o impulso ascendente que a anima e, fugindo do
infinito, se aprisiona em alguma pseudo-totalidade, mais alienante ainda que o
egoísmo subjectivo inicial. O nome religioso desse acto de confiança é fé, mas
a confiança que eleva a razão à busca do infinito transcende o sentido da mera adesão
a um credo em particular e tem antes uma dimensão antropológica: tudo o que o
ser humano fez de bom, fez movido pela fé e por meio da razão.
O espírito e a razão educam os sentimentos. Os
sentimentos do homem amadurecido pelo espírito e pela razão são diferentes dos
do homem imaturo, porque aquele ama o que deve amar e odeia o que deve odiar,
enquanto o segundo ama ou odeia às tontas, segundo as inclinações arbitrárias
da sua subjectividade moldada pelas pressões e atractivos do meio social.
Mas o que atrai a alma para a abertura ao
espírito e à razão é a esperança, e o despertar da esperança é um mistério.
Homens submetidos à mais dura opressão e aos mais tormentosos sofrimentos
conservam sua esperança, enquanto outros a perdem à primeira frustração de um
desejo tolo. A esperança não está sob o nosso controle. Seu advento depende do
espírito mesmo, que sopra onde quer. Todos os enredos humanos, da vida e da
ficção, giram em torno do mistério da esperança.
A esperança, a fé e a caridade educam os sentimentos
para o amor ao que deve ser amado.
O culto idolátrico dos sentimentos é um
egocentrismo cognitivo, um complexo de Peter Pan que recusa a maturidade.
Quanto mais o homem busca afirmar sua liberdade por meio da adesão cega a seus
sentimentos e desejos, mais se torna escravo da tagarelice ambiente.
O caminho da liberdade é para cima, não para
baixo. Libertar-se não é afirmar-se: é transcender-se.
Olavo de
Carvalho
Comentários
Enviar um comentário