Duas semanas mais tarde Ruhollah Khomeini, um
académico religioso de 77 anos, voou do exílio em Paris para Teerão, onde foi
recebido por milhões de seguidores e se tornou o líder da primeira revolução
islâmica moderna. O Ayatollah Khomeini chegou ao poder, não montado num burro,
mas quase com a mesma modéstia, no lugar do passageiro de uma carrinha Chevy
rodeado por muitos milhões de apoiantes, alguns dos quais estavam sentados no
tejadilho da cabina da sua carrinha.
Como Santo
Agostinho, disse, cada época é confrontada com duas opções: a Cidade de Deus ou
a Cidade do Homem, o trigo ou o joio, o Logos ou Anti-Logos.
A ligação de
Khomeini a Platão, é conhecida, pois procurou criar a sua república islâmica à
imagem e semelhança da República de Platão.
Tal facto
não é necessariamente um exemplo dos perigos da ocidentalização, se por ocidentalização
entendermos a imposição de filosofias materialistas e vulgares do Ocidente actual,
expressas em ideias como a da separação da Igreja e do Estado.
Pelo
contrário, o reconhecimento da dívida para com Platão é uma forma de
compreender o carácter universal dos problemas que Khomeini viu durante a sua
vida, problemas que o próprio Alcorão aborda, e a tentativa de encontrar uma
solução político-institucional para esses problemas que demonstrasse um verdadeiro
respeito pela lei divina - algo que o Ocidente vulgar moderno é incapaz de
fazer desde o Renascimento.
O papel do Irão no movimento do Logos na história da humanidade tornou-se ainda mais claro quando, a 3 de Janeiro de 1989, o Ayatollah Javad Amoli se deslocou a Moscovo para entregar uma carta do Ayatollah Khomeini a Mikhail Gorbachev.
A União Soviética estava a dar os últimos passos, e Gorbachev
procurava uma transição suave. Compreendendo intuitivamente esse desejo e os
perigos que acarretava, Khomeini enviou uma delegação a Moscovo na esperança de
o envolver numa conversa filosófica sobre a importância das ideias, a começar
pela da realidade de Deus. Khomeini estava a "usar" o seu prestígio
como líder de uma nação para tentar abrir Gorbachev à importância do
"mundo invisível" em oposição ao do "mundo visível" material.
Khomeini e
Amoli queriam iniciar um diálogo filosófico com um homem cujo país corria o
risco de cair sob o controlo do materialismo ocidental, em reacção ao
materialismo marxista que tinha arruinado a Rússia, mas Gorbachev não entendeu
as suas intenções.
Assim,
quando Gorbachev murmurou algo sobre a “liberdade religiosa” e a “separação da
Igreja e do Estado”, que era precisamente o problema contra o qual Amoli o
tinha vindo avisar, Amoli respondeu:
“Sr.
Gorbachev, é, você, como uma árvore, cuja morte apenas significará o
desvanecimento e o definhamento do seu corpo, e não haverá quaisquer sinais de
vida depois da sua morte? Ou é como um pássaro enjaulado na natureza do seu
corpo, e a sua morte significaria a abertura desta gaiola e o voo da sua alma
da tua alma para o mundo eterno? É claro que a segunda é verdadeira e não a
primeira; e o conteúdo da mensagem do Imã Khomeini é um convite ao monoteísmo e
à negação do ateísmo, o que está relacionado com a sua alma. De facto, quando a
alma de uma pessoa acredita no monoteísmo, ela encontrará a maneira correcta de
governar um país e fará esse trabalho da melhor maneira."
Khomeini
avisava, assim, Gorbachev de que a Rússia, depois de ter escapado ao Cila do
comunismo, ateu e materialista, corria agora um risco maior de se despenhar no
Caribdis do capitalismo ocidental materialista e ateu. Se isso acontecesse,
ele "cometeria um erro que os vindouros terão de corrigir”.
A solução de
Khomeini, surpreendentemente, não era o Islão, mas a filosofia. O líder supremo
exortou Gorbachev a ler filosofia se quisesse compreender melhor como passar do
conhecimento do que se vê para o conhecimento do invisível. O conhecimento que
poderia obter da filosofia permitir-lhe-ia então que ele se voltasse para Deus
e resolvesse melhor os problemas que a Rússia enfrentava neste momento crucial.
Khomeini recomendou o estudo de filósofos como
os aristotélicos, al-Farabi, Avicena, Ishraqi, Suhrawardi, Mulla Sadra e
Muhyi'd-Din ibn al-'Arabi, porque os seus escritos ajudá-lo-iam a compreender a
Revelação.
A filosofia,
sem recurso à fé, ensina, mesmo assim, que há "algo em nós que nos
transcende e se separa de nós, para além da matéria que nos compõe".
Quando compreendemos isso, podemos encontrar um caminho para Deus.
Marx havia dito que a religião é o ópio do
povo. Khomeini considera que, em termos gerais, Marx se enganou. Mas era claro
para Khomeini que se havia uma religião que "coloca grilhões espirituais
nas pessoas, fazendo com que os seus recursos materiais e espirituais passem
para as garras de uns poucos homens poderosos", sob o pretexto de
"que a religião é separada da política”, essa é a religião
americana", que "está longe de poder ser chamada a verdadeira
religião".
E. Michael
Jones, Libido Dominandi
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