A dialética da Imbecilidade


 

 O principal problema filosófico e político da nossa época é aquilo a que poderemos chamar de “dialéctica da imbecilidade”. O pensamento totalitário é sempre imbecil. E, quanto mais o analisarmos, mais impressionados ficaremos, não apenas com a dialética que lhe é intrínseca, mas com as associações e circunstâncias que fizeram, nos nossos dias, aparecer esse tipo de imbecilidade, que se tornou não apenas normal, mas até imprescindível para se obter sucesso dentro do sistema.

Os intelectuais, é sabido, têm uma propensão particular para as ideias idiotas, ou porque lhes são convenientes, ou em razão da sua proverbial vaidade. Começam por se convencer de que, devido à sua inteligência superior, estão melhor posicionados para identificar os erros alheios e ensinar aos outros como se devem comportar para que seja possível alcançar um mundo melhor. Mas, defrontando-se invariavelmente com comportamentos e ideias que foram evoluíndo ao longo do tempo para poderem garantir a sobrevivência de um determinado grupo em contextos particulares, eles, de forma simplista, têm tendência para os classificar como preconceitos e atavismos.

 Preferindo agarrar-se a princípios ideológicos facilmente aprendidos em obras de alguns pensadores modernos, fogem da complicada experiência hermenêutica de tentar entender as comunidades que desejam liderar e instruir – acusando os seus costumes, tradições e códigos morais de serem o fruto e a fonte de toda a opressão.

É esse o motivo porque geralmente são pessoas muito jovens e inexperientes, como os estudantes universitários, que se apaixonam pelas idéias mais idiotas - pois geralmente pensam que sabem tudo sem realmente saberem quase nada.

Ser-se inculto e ignorante não faz forçosamente de uma pessoa um idiota. O que a torna idiota é não conseguir distinguir o conhecimento da ignorância e pôr-se a falar de assuntos sobre os quais nem sabe que não sabe nada.

É, por isso, que os idiotas se enraivecem tão facilmente com as pessoas que deles discordam – particularmente com as pessoas que são capazes de discernir a ignorância do conhecimento e, portanto, conseguem ver quando, quem os está a tentar convencer, é um idiota ou os está a tentar fazer de idiotas.

Mas, por má que seja a idiotice, a imbecilidade é ainda pior; porque contém um ingrediente extra, estranho à idiotice - o ingrediente da insanidade.

A insanidade caracteriza-se por se persistir em fazer repetidamente a mesma coisa na esperança de que, a dada altura, surja um resultado diferente.

Os seres humanos não são totalmente imunes à loucura e, por vezes, todos agimos de forma idiota e fazemos coisas imbecis. Consequentemente, um certo grau de imbecilidade pessoal e social é inevitável.

O que não devia ser inevitável é termos um mundo onde a imbecilidade é gerada  nas próprias instituições, e onde ser-se - ou comportar-se  como - um imbecil se tornou uma condição sine qua non para se proguedir em qualquer carreira dentro do sistema e sobretudo para se pertencer às “elites” do mundo ocidental.

Mas, a situação não é propriamente nova – todos os estados totalitários se basearam no poder e prestígio dos imbecis, como Milosz observou em The Captive Mind (1951).  E, antes dele, já Hannah Arendt havia advertido que os súbditos característicos dos estados totalitários são pessoas "para as quais a distinção entre facto e ficção - e a distinção entre verdadeiro e falso -  deixaram de existir".

Por isso, é fácil observar que, as democracias ocidentais, à medida que se vão tornando mais imbecis se tornam mais totalitárias.

Por outras palavras, uma sociedade totalitária requer uma sociedade de imbecis que acreditem mais na “realidade” criada oficialmente, do que na própria Realidade.

 E sobretudo precisa de imbecis, que aceitem entrar no jogo, como seus funcionários

Os imbecis geralmente são ambiciosos, tendo um orgulho ilimitado nos seus conhecimentos e competências e  achando-se, por isso, no direito de  exigir para si próprios sempre mais autoridade e poder, que lhes permita impedir qualquer veleidade de alguém pensar ou dizer algo que ponha em causa o seu poder e autoridade.

Numa era de imbecilidade generalizada, como a nossa, isso significa que as ideias que não sejam imbecis constituiem uma ameaça existencial para o poder e os privilégios da classe imbecil.

E, a imbecilidade, é contagiosa, uma vez que é sempre mais fácil apreender algo imbecil do que compreender algo complicado - como, por exemplo, o mundo, ou a natureza das coisas ou a história humana ou a ciência.

Mas o pior de tudo é que, como a imbecilidade é uma verdadeira morte mental e espiritual,  leva necessariamente à loucura e esta, por sua vez, é sempre cúmplice involuntária do mal.

 Uma ordem social e política imbecil é sempre uma instanciação do mal, na qual o declínio e a morte física prematura, inevitavelmente, se seguirão à morte espiritual .

 

Na verdade, a modernidade é um pacto faustiano pelo qual se procura atingir a perfeição através da sistematização das ideias em “ideologias” mas independentizando estas, de todo o conhecimento “pré-consciente”, tido agora por preconceituoso – embora, na realidade ele resultasse da natureza das coisas, da natureza humana, sendo a base de toda a experiência e tradição cocletivas.

 

Trata-se duma nova idololatria e, como todas as idolatrias, mais tarde ou mais cedo, acaba por ter um custo terrível; esta idolatria das idéias não é excepção.

 A idolatria implica a perda da alma, e a condenação eterna.

 

Não sei como é possível não ser evidente para toda a gente estar o mundo ocidental a condenar-se pela idolatria das suas idéias – das ideologias que construiu. Como Eva - que estupidamente adorou a árvore cujos frutos lhe deveriam dar o conhecimento e o poder completos, nós, idólatras modernos, em busca do conhecimento e poder perfeitos, tornamo-nos servos do Diabo.

 E o Diabo de hoje é dialético.

Lembremos o insight agostiniano de que o mal é o não ser, e que este é parasitário do ser.

 A dialectica da imbecilidade é a dialéctica Hegeliana que procura conjugar o ser com o nada,  através do devir,  tomando o não-ser  pelo real.

 Mas, para alguém conseguir aceitar esta unidade dos contrários é preciso, primeiro, tornar-se um imbecil.

Eis uma pequena lista das imbecilidades em que baseiam as ideias modernas:

a) – É imbecil afirmar que a metafísica  não existe; pois, tal afirmação é, ela própria, uma afirmação metafísica. Por outras palavras, a inexistência da metafísica é afirmada através duma proposição de natureza  metafísica.

 

b) - É imbecil, o relativismo subjectivista, segundo o qual “o homem é a medida de todas as coisas”. Segundo esta corrente ideológica, não existem verdades absolutas válidas para todos os homens de todos os tempos. Mas, é evidente que a negação da existência de verdades absolutas pretende, ela própria, erigir-se em verdade absoluta. Ou seja, se for verdade é mentira.

c) – É imbecil o historicismo que afirma ser a verdade apenas a expressão de uma cosmovisão temporalmente localizada e limitada no tempo. Mas, se esta afirmação fosse verdade, só seria verdade até que surgisse uma outra cosmovisão temporalmente limitada - que poderia defender, até, a afirmação contrária – a da existência de verdades não limitadas temporalmente.

 

d) – É imbecil defender que, embora a verdade possa  ser absoluta, o nosso conhecimento só a pode procurar pelo processo dialéctico de destruição criativa, segundo o qual,  do confronto de uma ideia com a sua contrária  nascerá uma nova verdade – ideia que se for verdadeira, só o será até que ocorra o referido confronto com a ideia contrária.

 

e) – É imbecil, defender que todo conhecimento é empírico, ou seja, que todo o conhecimento provem, apenas das nossas impressões sensíveis porque esta é, ela própria, uma afirmação não-empírica. Nenhuma impressão sensível - como a medição do ponto de ebulição do chumbo, ou da velocidade da luz, ou nada do género - acrescenta um iota de convicção ou de dúvida, a favor ou contra essa afirmação; ela, ou é aceite em termos apriorísticos, não empíricos,  filosóficos, metafísicos ou não é aceite de forma alguma.

f) – É imbecil defender que o nosso carácter, até aos mais pequenos pormenores, é apenas fruto de circunstancias materiais. Esta proposição refuta-se a si própria pois, quem a defende, poderia  defender a contrária se tivesse sido sujeito a outras circunstancias materiais.

g) – É imbecil defender que todas as interacções humanas se reduzem a conflitos darwinianos de poder, entre facções irreconciliáveis,– entre sexos, entre raças, entre classes sociais, etc. Esta afirmação anuncia-se a si própria, segundo os seus próprios termos,  como uma narrativa destinada a obter a supremacia do grupo dos auto-intitulados libertadores dos (supostos) oprimidos, sobre o grupo dos opressores.

h) – É imbecil defender a possibilidade de existência da, assim chamada, Inteligência Artificial. Segundo esta hipótese, hoje prevalecente, a actividade do intelecto humano seria redutível a um conjunto de fenómenos  físicos, ocorridos no cérebro, através de impulsos eléctricos por meio de neuro-transmissores, actividade essa que apenas se distinguiria da dos computadores  em termos quantitativos, de maior complexidade e sofisticação.

Para nos apercebermos da contradição que esta teoria encerra basta pensar no seguinte: quando se prime, por exemplo, a tecla “2” do teclado dum computador, despoletam-se fenómenos eléctricos que determinam o aparecimento, no ecrã, duma imagem correspondente ao número dois. Mas a imagem, em si – e, sobretudo, para o próprio computador, -  não tem qualquer significado,  é apenas um conjunto de pixéis dispostos duma determinada maneira. A mente humana é que lhe vai atribuir o significado correspondente.

Mas, se a actividade intelectual humana, consistisse apenas em fenómenos eléctricos ou químicos neuronais,  essa actividade, tal como a do computador, não seria susceptível de poder atribuir qualquer significado ao que quer que fosse. E, sendo assim, é necessariamente impossível que, as operações de abstractas do intelecto humano, possam, ocorrer a um nível exclusivamente físico.

A ideia de que todas as ideias são apenas fenómenos eléctricos ou neuro-químicos sem significado,seria ela própria, nos seus próprios termos, um fenómeno eléctrico ou neuro-químico, logo sem significado.

i) – É imbecil defender-se o ateísmo porque  é auto-contraditório, sob todos os pontos de vista:

Do ponto de vista da Metafísica, se não existisse Deus – ou, um outro qualquer primeiro princípio sobrenatural, - o nominalismo  seria verdade e toda a filosofia, incluindo a filosofia nominalista, não passaria de meros jogos de palavras, sem significado.

Do ponto de vista da Ontologia, não existindo Deus, o  materialismo seria verdadeiro e toda a filosofia, incluindo a filosofia materialista, não passaria dum subproduto de fenómenos neuro-químicos cerebrais sem significado.

Do ponto de vista da  causalidade, não existindo Deus, o mecanicismo seria a explicação única e suficiente da relação causa-efeito e toda a filosofia, incluindo o materialismo, não passaria de um conjunto de fenómenos químicos cerebrais, sem intenção, sem objectivo e sem significado, impossíveis de classificar como verdadeiros ou falsos.

Do ponto de vista da Epistemologia, não existindo Deus, não existiriam primeiros princípios a partir dos quais raciocinar, logo, o cepticismo seria verdadeiro e todo o conhecimento, incluindo o de que Deus não existe, estaria para sempre inacessível à mente humana; não haveria como saber se, o próprio cepticismo, era, ou não, verdadeiro.

Do ponto de vista da Ética, não existindo Deus,  não existiriam quaisquer padrões morais objectivos, tornando-se irracional defender qualquer código moral pois, este, não passaria dum epifenómeno cerebral arbitrário e sem significado; não existiria Justiça, mas apenas narrativas dos poderosos para confundir e oprimir os mais fracos.

Não existindo Deus, o niilismo seria verdadeiro e nada, nem o ateísmo, teria qualquer significado ou mereceria, sequer, ser discutido.

Não existindo Deus, o universo, não poderia ter tido uma causa primeira, logo, não teria tido um início, nem poderia ter um fim,  Mas, a Expansão de Hubble dá-nos uma prova empírica  consistente de que o universo teve um começo e, a Segunda Lei da Termodinâmica, diz-nos que forçosamente terá de ter um fim.

1 de julho de 2021 Wayne Cristaudo

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