A dialética da Imbecilidade
Os intelectuais, é sabido, têm uma propensão
particular para as ideias idiotas, ou porque lhes são convenientes, ou em razão
da sua proverbial vaidade. Começam por se convencer de que, devido à sua
inteligência superior, estão melhor posicionados para identificar os erros
alheios e ensinar aos outros como se devem comportar para que seja possível
alcançar um mundo melhor. Mas, defrontando-se invariavelmente com
comportamentos e ideias que foram evoluíndo ao longo do tempo para poderem
garantir a sobrevivência de um determinado grupo em contextos particulares,
eles, de forma simplista, têm tendência para os classificar como preconceitos e
atavismos.
Preferindo agarrar-se
a princípios ideológicos facilmente aprendidos em obras de alguns pensadores modernos,
fogem da complicada experiência hermenêutica de tentar entender as comunidades
que desejam liderar e instruir – acusando os seus costumes, tradições e códigos
morais de serem o fruto e a fonte de toda a opressão.
É esse o motivo porque geralmente são pessoas muito
jovens e inexperientes, como os estudantes universitários, que se apaixonam
pelas idéias mais idiotas - pois geralmente pensam que sabem tudo sem realmente
saberem quase nada.
Ser-se inculto e ignorante não faz forçosamente de
uma pessoa um idiota. O que a torna idiota é não conseguir distinguir o
conhecimento da ignorância e pôr-se a falar de assuntos sobre os quais nem sabe
que não sabe nada.
É, por isso, que os idiotas se enraivecem tão
facilmente com as pessoas que deles discordam – particularmente com as pessoas
que são capazes de discernir a ignorância do conhecimento e, portanto, conseguem
ver quando, quem os está a tentar convencer, é um idiota ou os está a tentar fazer
de idiotas.
Mas, por má que seja a idiotice, a imbecilidade é
ainda pior; porque contém um ingrediente extra, estranho à idiotice - o
ingrediente da insanidade.
A insanidade caracteriza-se por se persistir em fazer
repetidamente a mesma coisa na esperança de que, a dada altura, surja um
resultado diferente.
Os seres humanos não são totalmente imunes à
loucura e, por vezes, todos agimos de forma idiota e fazemos coisas imbecis. Consequentemente,
um certo grau de imbecilidade pessoal e social é inevitável.
O que não devia ser inevitável é termos um mundo onde
a imbecilidade é gerada nas próprias
instituições, e onde ser-se - ou comportar-se como - um imbecil se tornou uma condição sine
qua non para se proguedir em qualquer carreira dentro do sistema e sobretudo
para se pertencer às “elites” do mundo ocidental.
Mas, a situação não é propriamente nova – todos os
estados totalitários se basearam no poder e prestígio dos imbecis, como Milosz observou
em The Captive Mind (1951). E, antes
dele, já Hannah Arendt havia advertido que os súbditos característicos dos
estados totalitários são pessoas "para as quais a distinção entre facto e
ficção - e a distinção entre verdadeiro e falso - deixaram de existir".
Por isso, é fácil observar que, as democracias
ocidentais, à medida que se vão tornando mais imbecis se tornam mais
totalitárias.
Por outras palavras, uma sociedade totalitária
requer uma sociedade de imbecis que acreditem mais na “realidade” criada
oficialmente, do que na própria Realidade.
E sobretudo
precisa de imbecis, que aceitem entrar no jogo, como seus funcionários
Os imbecis geralmente são ambiciosos, tendo um orgulho
ilimitado nos seus conhecimentos e competências e achando-se, por isso, no direito de exigir para si próprios sempre mais autoridade
e poder, que lhes permita impedir qualquer veleidade de alguém pensar ou dizer algo
que ponha em causa o seu poder e autoridade.
Numa era de imbecilidade generalizada, como a
nossa, isso significa que as ideias que não sejam imbecis constituiem uma
ameaça existencial para o poder e os privilégios da classe imbecil.
E, a imbecilidade, é contagiosa, uma vez que é sempre
mais fácil apreender algo imbecil do que compreender algo complicado - como,
por exemplo, o mundo, ou a natureza das coisas ou a história humana ou a
ciência.
Mas o pior de tudo é que, como a imbecilidade é
uma verdadeira morte mental e espiritual, leva necessariamente à loucura e esta, por sua
vez, é sempre cúmplice involuntária do mal.
Uma ordem
social e política imbecil é sempre uma instanciação do mal, na qual o declínio
e a morte física prematura, inevitavelmente, se seguirão à morte espiritual .
Na verdade, a modernidade é um pacto faustiano pelo
qual se procura atingir a perfeição através da sistematização das ideias em
“ideologias” mas independentizando estas, de todo o conhecimento
“pré-consciente”, tido agora por preconceituoso – embora, na realidade ele resultasse
da natureza das coisas, da natureza humana, sendo a base de toda a experiência
e tradição cocletivas.
Trata-se duma nova idololatria e, como todas as
idolatrias, mais tarde ou mais cedo, acaba por ter um custo terrível; esta
idolatria das idéias não é excepção.
A idolatria
implica a perda da alma, e a condenação eterna.
Não sei como é possível não ser evidente para toda
a gente estar o mundo ocidental a condenar-se pela idolatria das suas idéias –
das ideologias que construiu. Como Eva - que estupidamente adorou a árvore
cujos frutos lhe deveriam dar o conhecimento e o poder completos, nós,
idólatras modernos, em busca do conhecimento e poder perfeitos, tornamo-nos
servos do Diabo.
E o Diabo
de hoje é dialético.
Lembremos o insight agostiniano de que o mal é o
não ser, e que este é parasitário do ser.
A
dialectica da imbecilidade é a dialéctica Hegeliana que procura conjugar o ser com
o nada, através do devir, tomando o não-ser pelo real.
Mas, para alguém
conseguir aceitar esta unidade dos contrários é preciso, primeiro, tornar-se um
imbecil.
Eis uma pequena lista das imbecilidades em que
baseiam as ideias modernas:
a) – É imbecil afirmar que a metafísica não existe; pois, tal afirmação é, ela
própria, uma afirmação metafísica. Por outras palavras, a inexistência da
metafísica é afirmada através duma proposição de natureza metafísica.
b) - É imbecil, o relativismo subjectivista,
segundo o qual “o homem é a medida de todas as coisas”. Segundo esta corrente
ideológica, não existem verdades absolutas válidas para todos os homens de
todos os tempos. Mas, é evidente que a negação da existência de verdades
absolutas pretende, ela própria, erigir-se em verdade absoluta. Ou seja, se for
verdade é mentira.
c) – É imbecil o historicismo que afirma ser a
verdade apenas a expressão de uma cosmovisão temporalmente localizada e
limitada no tempo. Mas, se esta afirmação fosse verdade, só seria verdade até
que surgisse uma outra cosmovisão temporalmente limitada - que poderia
defender, até, a afirmação contrária – a da existência de verdades não
limitadas temporalmente.
d) – É imbecil defender que, embora a verdade
possa ser absoluta, o nosso conhecimento
só a pode procurar pelo processo dialéctico de destruição criativa, segundo o
qual, do confronto de uma ideia com a
sua contrária nascerá uma nova verdade –
ideia que se for verdadeira, só o será até que ocorra o referido confronto com
a ideia contrária.
e) – É imbecil, defender que todo conhecimento é
empírico, ou seja, que todo o conhecimento provem, apenas das nossas impressões
sensíveis porque esta é, ela própria, uma afirmação não-empírica. Nenhuma
impressão sensível - como a medição do ponto de ebulição do chumbo, ou da
velocidade da luz, ou nada do género - acrescenta um iota de convicção ou de
dúvida, a favor ou contra essa afirmação; ela, ou é aceite em termos
apriorísticos, não empíricos,
filosóficos, metafísicos ou não é aceite de forma alguma.
f) – É imbecil defender que o nosso carácter, até
aos mais pequenos pormenores, é apenas fruto de circunstancias materiais. Esta
proposição refuta-se a si própria pois, quem a defende, poderia defender a contrária se tivesse sido sujeito
a outras circunstancias materiais.
g) – É imbecil defender que todas as interacções
humanas se reduzem a conflitos darwinianos de poder, entre facções
irreconciliáveis,– entre sexos, entre raças, entre classes sociais, etc. Esta
afirmação anuncia-se a si própria, segundo os seus próprios termos, como uma narrativa destinada a obter a
supremacia do grupo dos auto-intitulados libertadores dos (supostos) oprimidos,
sobre o grupo dos opressores.
h) – É imbecil defender a possibilidade de
existência da, assim chamada, Inteligência Artificial. Segundo esta hipótese,
hoje prevalecente, a actividade do intelecto humano seria redutível a um
conjunto de fenómenos físicos, ocorridos
no cérebro, através de impulsos eléctricos por meio de neuro-transmissores,
actividade essa que apenas se distinguiria da dos computadores em termos quantitativos, de maior complexidade
e sofisticação.
Para nos apercebermos da contradição que esta
teoria encerra basta pensar no seguinte: quando se prime, por exemplo, a tecla
“2” do teclado dum computador, despoletam-se fenómenos eléctricos que
determinam o aparecimento, no ecrã, duma imagem correspondente ao número dois.
Mas a imagem, em si – e, sobretudo, para o próprio computador, - não tem qualquer significado, é apenas um conjunto de pixéis dispostos duma
determinada maneira. A mente humana é que lhe vai atribuir o significado
correspondente.
Mas, se a actividade intelectual humana,
consistisse apenas em fenómenos eléctricos ou químicos neuronais, essa actividade, tal como a do computador,
não seria susceptível de poder atribuir qualquer significado ao que quer que
fosse. E, sendo assim, é necessariamente impossível que, as operações de
abstractas do intelecto humano, possam, ocorrer a um nível exclusivamente
físico.
A ideia de que todas as ideias são apenas
fenómenos eléctricos ou neuro-químicos sem significado,seria ela própria, nos
seus próprios termos, um fenómeno eléctrico ou neuro-químico, logo sem
significado.
i) – É imbecil defender-se o ateísmo porque é auto-contraditório, sob todos os pontos de
vista:
Do ponto de vista da Metafísica, se não existisse
Deus – ou, um outro qualquer primeiro princípio sobrenatural, - o
nominalismo seria verdade e toda a
filosofia, incluindo a filosofia nominalista, não passaria de meros jogos de
palavras, sem significado.
Do ponto de vista da Ontologia, não existindo
Deus, o materialismo seria verdadeiro e
toda a filosofia, incluindo a filosofia materialista, não passaria dum
subproduto de fenómenos neuro-químicos cerebrais sem significado.
Do ponto de vista da causalidade, não existindo Deus, o
mecanicismo seria a explicação única e suficiente da relação causa-efeito e
toda a filosofia, incluindo o materialismo, não passaria de um conjunto de
fenómenos químicos cerebrais, sem intenção, sem objectivo e sem significado,
impossíveis de classificar como verdadeiros ou falsos.
Do ponto de vista da Epistemologia, não existindo
Deus, não existiriam primeiros princípios a partir dos quais raciocinar, logo,
o cepticismo seria verdadeiro e todo o conhecimento, incluindo o de que Deus
não existe, estaria para sempre inacessível à mente humana; não haveria como
saber se, o próprio cepticismo, era, ou não, verdadeiro.
Do ponto de vista da Ética, não existindo
Deus, não existiriam quaisquer padrões
morais objectivos, tornando-se irracional defender qualquer código moral pois,
este, não passaria dum epifenómeno cerebral arbitrário e sem significado; não
existiria Justiça, mas apenas narrativas dos poderosos para confundir e oprimir
os mais fracos.
Não existindo Deus, o niilismo seria verdadeiro e
nada, nem o ateísmo, teria qualquer significado ou mereceria, sequer, ser
discutido.
Não existindo Deus, o universo, não poderia ter
tido uma causa primeira, logo, não teria tido um início, nem poderia ter um
fim, Mas, a Expansão de Hubble dá-nos
uma prova empírica consistente de que o
universo teve um começo e, a Segunda Lei da Termodinâmica, diz-nos que
forçosamente terá de ter um fim.
…
1 de julho de 2021 Wayne Cristaudo
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