A Autoridade Moral do Mal
Há uns anos,
a direcção da PETA — People for the
Ethical Treatment of Animals, empombadíssima ONG que, em nome dos direitos
dos animais, dizia horrores das pessoas que comem carne, usam casacos de pele
ou vão ao circo — foi processada pela matança de milhares de gatos e cães.
Funcionários da organização recolheram os bichos em depósitos públicos, dizendo
que iam arranjar famílias para os adoptar. O pessoal dos depósitos nem pensou
duvidar dos agentes de uma instituição famosa e políticamente correcta. Dias
depois, os homens da PETA foram surpreendidos atirando os cadáveres de 14.400
animais para um terreno baldio, em sacos de lixo.
Por essa altura, os remanescentes dos Khmers Vermelhos, a organização genocida
liderada pelo famigerado Pol-Pot, começaram a ser julgados num tribunal em
Phnom Penh, no Camboja, apesar de tudo que a bondosa ONU fez para tentar
livrá-los de tão desumano constrangimento. Esses terroristas, que foram
colocados no poder pelo regime comunista vencedor da guerra do Vietname - com a
ajuda dos media ocidentais e de um
exército de pop stars e intelectuais
bem pensantes - massacraram em poucos
anos três milhões de civis, mais de três vezes o total das vítimas da
famigerada guerra do Vietname,
O paralelo entre a matança de animais e a de
seres humanos não é fortuito: em ambos os casos um discurso atraente,
condensado em slogans de grande
impacto repetidos ad nauseam pela
comunicação social, recobriu com o manto do prestígio moral uma gangue de sociopatas
assassinos, criminalizando os que se opunham aos seus planos macabros e
transformando cidadãos inocentes em cúmplices daquilo que existe de pior no
mundo.
O fundo ideológico, nas duas ocasiões, é
sempre o mesmo: é a inversão revolucionária dos sentimentos morais, a imposição
do mal em nome do bem.
Educado nos princípios do relativismo, que
entrou na moda quando eu era adolescente, demorei muito para descobrir por
experiência — e tive enorme dificuldade de admitir — que no mundo há pessoas
muito boas e pessoas muito más, separadas por um abismo irredutível.
Mais
doloroso ainda, porém, foi descobrir que todos os mestres-pensadores e líderes
políticos que encarnavam os ideais pomposamente alardeados pela militância
intelectual esquerdista — todos, sem excepção — pertenciam inequivocamente à
segunda categoria.
Quem quer que estude as vidas de cada um deles
descobrirá que Voltaire, Diderot, Jean-Jacques Rousseau, Sade, Karl Marx,
Tolstoi, Bertolt Brecht, Lenin, Stalin, Fidel Castro, Che Guevara, Mao Tsétung,
Bertrand Russell, Jean-Paul Sartre, Max Horkheimer, Theodor Adorno, Georg
Lukács, Antonio Gramsci, Lillian Hellman, Michel Foucault, Louis Althusser,
Norman Mailer, Noam Chomsky e tutti
quanti, foram indivíduos sádicos, obsessivamente mentirosos, aproveitadores
cínicos, vaidosos até à demência, desprovidos de qualquer sentimento moral
superior e de qualquer boa intenção por mínima que fosse, excepto, talvez, no
sentido de usar as palavras mais nobres para nomear os actos mais torpes.
Muitos cometeram assassinatos pessoalmente, sem jamais demonstrar remorso.
Outros foramvioladores ou exploradores de mulheres, vis opressores dos seus
empregados, agressores das suas esposas e filhos. Outros, orgulhosamente
pedófilos.
Em suma, o panteão dos ídolos do esquerdismo
universal era uma galeria de deformidades morais de fazer inveja à lista de
vilões da literatura universal. De facto, não se encontrará entre os
personagens de Shakespeare, Balzac, Dostoiévski e demais clássicos nenhum que
se compare, em malícia e crueldade, a um Stalin, a um Hitler ou a um Mao
Tsé-tung.
Em
contrapartida, os representantes das correntes opostas, conservadoras ou
reaccionárias, conforme fui descobrindo, com ainda maior surpresa, eram quase
invariavelmente seres humanos de alta qualidade moral, atestada não só pela
idoneidade do seu trabalho intelectual, onde nada se encontrará das fraudes
monstruosas perpetradas por um Voltaire, um Diderot ou um Karl Marx, mas também
nas circunstâncias do quotidiano e nos testes mais rigorosos da existência.
Dificilmente se encontrará algum capítulo
vergonhoso na biografia de Pascal, de Leibniz, de Bossuet, de Donoso Cortés, de
Joseph de Maistre, de John Henry Newman, de Edmund Burke, de Vladimir Soloviev,
de Nikolai Berdiaev, de Alexis de Tocqueville, de Edmund Husserl, de Ludwig von
Mises, de Benjamin Disraeli, de Russel Kirk, de Xavier Zubiri, de Louis
Lavelle, de GarrigouLagrange, de Joseph Maréchal, de Victor Frankl, de Marcel
De Corte e de tantos outros. Ao contrário, essas vidas transbordavam de
exemplos de grandeza, generosidade, coragem e humildade.
E mesmo
aqueles que reconhecidamente pecaram, jamais ostentaram orgulho disso como um
Rousseau ou um Brecht, nem muito menos trataram de encobrir suas vergonhas com
uma engenhosa teia de mentiras auto lisonjeiras como o fizeram Voltaire e
Diderot.
Para levar a comparação até às suas últimas
consequências, até os mais vilipendiados ditadores reaccionários, Franco,
Salazar e Pinochet, com todos os crimes políticos que possam ter cometido,
mantiveram em suas vidas pessoais um padrão de moralidade incomparavelmente
mais elevado que o dos tiranos revolucionários. Pelo menos não mandavam matar
seus mais próximos amigos e companheiros de luta, como Stalin, Hitler e Fidel
Castro, nem violaram meninas menores de idade como fazia Mao Tsé-tung.
Por favor, não me entendam mal. Há, é claro,
um bom número de patifes entre os escritores e sobretudo os políticos de
direita, e descobri-los-emos facilmente se alargarmos o espectro do exame para
abranger os de médio e pequeno porte. Mas, numa comparação entre os personagens
maximamente influentes dos dois campos, não é possível deixar de notar a
superioridade moral dos direitistas e a ausência completa de um só tipo
moralmente bom entre os esquerdistas: são todos maus, sem excepção.
À medida que fui acumulando leituras e o
conhecimento das biografias dos autores lidos, não tive mais como escapar da
conclusão: era impossível que o estofo moral desses dois grupos não se
reflectisse de algum modo nas suas ideias. Ideias, afinal, não são formas
platónicas pairando em abstracto na eternidade. São actos da inteligência
humana, são reacções de pessoas de carne e osso a situações concretas e são
também expressões de seus desejos, temores e ambições.
Havia, por
outro lado, o teste evangélico: os frutos. As ideias dos grandes gurus
revolucionários não tinham produzido por toda parte senão devastação e morte em
proporções jamais vistas ao longo de toda a história anterior e nem de longe
comparáveis a qualquer malefício que pudesse algum dia ter resultado das ideias
conservadoras.
Só a Revolução Francesa matou num ano dez vezes mais gente do que a
Inquisição Espanhola em quatro séculos. Feitas as contas — e, ad argumentandum, até mesmo excluindo o
nazismo da tradição revolucionária a que inequivocamente pertence —, os regimes
inspirados nas ideias desses gurus superaram, em número absoluto de vítimas,
não só o total dos morticínios anteriormente ocorridos em todas as civilizações
conhecidas, mas também as taxas de óbitos registadas em todas as epidemias,
terremotos e furacões do século XX.
Mesmo
considerado só do ponto de vista quantitativo, o “ideal revolucionário”, enfim,
foi o maior flagêlo que jamais se abateu sobre a espécie humana.
Mesmo que
olhássemos os pensadores reaccionários só pelo mal que possam ter provocado
voluntária ou involuntariamente, seus feitos, no conjunto, não poderiam jamais
competir, nem de longe, com essa pletora cósmica do sangrento e do macabro que
é o curriculum vitae dos mestres da
revolução.
Se ideias
nascidas de almas disformes proliferaram em consequências nefastas, seria
absolutamente imbecil teimar em ver nisso um mero cúmulo de coincidências, que
teria de ser ele próprio a coincidência das coincidências, o mais inexplicável
mistério da história humana.
A condenação
radical que as obras desses homens merecem do ponto de vista moral é
independente da crítica lógica da veracidade ou falsidade parcial ou total das
suas teorias, e esta é independente daquela. Mas é quase inevitável que a visão
de tamanha miséria intelectual somada à baixeza moral das intenções e à
natureza catastrófica dos efeitos acabe por suscitar a pergunta: como foi
possível que ideias tão inconsistentes, tão maldosas e tão desastradas tenham
adquirido a autoridade moral de que ainda desfrutam nos sectores nominalmente
mais cultos da população?
Todos os
males do mundo político, sem exceção, vêm de grupos esquerdistas iluminados
que, a pretexto de os resolver, concentram cada vez mais poder nas suas mãos.
O mundo
entrou na era do caos sangrento a partir do instante em que os homens deixaram
de ser julgados por seus actos e passaram a sê-lo pelos ideais que alegam.
Impor esse novo critério a toda a sociedade foi a maior vitória do espírito esquerdista
sobre a normalidade humana. Enquanto essa distorção monstruosa não for
eliminada da atmosfera cultural, o mundo não terá um momento de paz. Quando um
sujeito se acredita o portador de um 'mundo melhor', não há mentira que ele se
impeça de dizer, nem crime que ele se iniba de cometer
Os esquerdistas
acreditam 'amar a humanidade impessoalmente', como se abstraída a dimensão
pessoal ainda restasse algo de humano. O que amam é uma hipotética humanidade
futura construída à imagem deles mesmos, em nome da qual tentam eliminar a
humanidade presente.
A procura da
felicidade universal, quando desacompanhada da caridade para com os seres
humanos reais, de carne e osso, parece conferir aos seus portadores uma mágica
autoridade moral que os imuniza contra qualquer tipo de escrúpulos ou
arrependimento em relação aos seus actos, por mais bárbaros e hediondos, que sejam.
Os indivíduos ou grupos imbuídos dessa mentalidade
esquerdista julgam-se habilitados a remodelar o conjunto da sociedade – se
não mesmo a natureza humana e a estrutura da realidade – por meio da
acção política, acreditando que, sendo agentes de um futuro melhor, estão acima
de qualquer juízo de valor por parte da humanidade presente ou passada, só
tendo de dar satisfações ao tribunal da
história. Mas esse tribunal é, por definição, a mirífica sociedade futura
que esse indivíduo ou grupo dizem representar no presente; e como essa futura
sociedade só pode julgar através dos seus representantes presentes, eles
tornam-se assim, não só nos únicos juízes de seus próprios actos, mas dos actos
de toda a humanidade passada, presente e futura, podendo acusar e condenar
todas as leis, instituições, crenças, valores, costumes, acções e obras de
todas as épocas, sem que, eles próprios, possam ser julgados por nenhuma
delas, ficando, assim, imbuídos duma
substâmcia moral e psicológica radicalmente diferente da da humanidade normal:
qualquer esquerdista sente-se membro duma supra-humanidade ungida, dona da verdade e detentora de direitos
negados ao comum dos mortais, justificando os seus crimes por força dos nobres ideais que defendem.
Os maiores
crimes e atrocidades da história não foram, pois, cometidos por inveja, ou
desejo de poder ou, nem mesmo, devido a maus instintos, mas sim por um anseio
pueril de, por artes mágicas, conseguir uma radical transfiguração da realidade
onde 'tudo passará a ser mais belo' - como dizia António Gramsci -, onde os amanhãs que cantam ou a sociedade do bem-estar igualitária, finalmente
chegarão.
Só um idiota
completo acredita que uma política se define pelos ideais proclamados e não
pelos meios materiais de acção que emprega. Não é por coincidência que os
maiores genocidas da história foram também os maiores propagandistas da
democracia e da igualdade.
O mundo seria
bem melhor se os esquerdistas em vez de procurarem melhorar o mundo, procurassem
melhorar-se a si próprios.
Ser
conservador ou reacionário é simplesmente recusar-se a inventar uma nova
sociedade e, em vez disso, tratar de melhorar um pouquinho a sociedade
existente. Todos que não são completamente doidos são conservadores ou
reacionários.
Coligido de
vários textos de OLAVO DE CARVALHO por JFM
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