O Pater Noster segundo Santa Teresa de Ávila
Em São Lucas, e de forma mais desenvolvida em São
Mateus, no Sermão da Montanha (Mt 6, 5-15), Jesus indica as disposições com que
devemos orar e, de seguida, o que devemos pedir.
As disposições necessárias para a oração
encontram-se expressas neste versículo:
Quando
orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, ora ao teu Pai em segredo; e
teu Pai, que vê em segredo, te dará a recompensa (Mt 6,6)
É belo ver como o Senhor ensina a orar,
revelando-nos que, para orar bem, devemos separar-nos de todas as criaturas,
escondermo-nos, para falar na intimidade com o Pai celeste; é em segredo que
nos devemos colocar em contacto com o Senhor. Entre nós e as criaturas deve ser
colocada uma barreira… A alma fala em segredo e o Pai responde em segredo.
Santa Teresa diz que o senhor fala ao coração, precisamente quando é o coração
que reza, querendo significar que é preciso orar em intimidade e que a oração
se torna cada vez mais secreta na medida em que se aperfeiçoa: … então, o Pai
responde!
Em seguida, Jesus ensina o que devemos pedir
quando oramos: neste ambiente de solidão e afastamento das coisas criadas,
rezareis assim, diz Ele:
Pai Nosso, que
estais no Céu…
Santa Teresa de Ávila não fez mais do que explicar
como, para atingir a oração contemplativa, se deve entrar na abnegação mais
completa, praticar a caridade fraterna, o afastamento de todas as criaturas, a
humildade; explica que se recomendou a prática das virtudes, e das virtudes
heroicas, é porque se trata de alcançar não só a meditação, mas a própria
contemplação; explica também que este contacto da inteligência e da vontade,
com o Senhor, deve ser um impulso todo feito de confiança e abandono, um
impulso filial em direcção ao Pai celeste.
São explêndidas as
páginas que Santa Teresa escreveu sobre as primeiras palavras do Pater. Jesus ensinou-nos a dizer a Deus
Pai Nosso.
Nessa atmosfera de
filiação e de paternidade divina, a alma espontaneamente sente-se impelida a
aproximar-se sempre, cada vez mais, de Deus.
Que
estás no Céu,
e com isso, ensina a oração de recolhimento na
qual a alma procura tomar profunda consciência da habitação divina que ela
própria é. A oração de recolhimento é a oração mais íntima com a qual nos
podemos acercar de Deus. É tudo que podemos fazer da nossa parte. Com ela a
alma coloca-se à disposição do Senhor. Depois, com a oração de quietude, entra
o Senhor na alma; e com a oração unitiva, atrai-a toda a Si.
Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade:
a Santa recorda que essas
coisas devem andar sempre juntas, se queremos que o Senhor nos tome, por meio
da oração de quietude e união. E se Ele nos toma, dá-Se-nos também; entra na
alma pela porta da vontade. Por isso Santa Teresa acrescenta: “Entreguemos-Lhe,
finalmente, esta pedra preciosa que há tanto tempo Lhe temos mostrado” (Caminho, XXX, 8). E lembra depois que a
nossa doação ao Senhor é sempre uma doação dolorosa, na qual entra grande parte
de sofrimento. E a Santa sabe valorizar o sofrimento! “ Considerai… aquilo que
o Pai deu Áquele que mais amava”, “Ele dá mais sofrimento a quem mais O ama…” (Caminho, XXXII, 7.), e quanto mais
corajosa enxerga a alma, mais lhe dá a sofrer: “Outra medida neste ponto é a
coragem que vê em nós e o amor que Lhe dedicamos”. Perto das últimas Moradas do Castelo Interior, a alma
entrega-se oferecida a Deus que sempre se dá à alma cada vez mais são as
extraordinárias riquezas da união de conformidade. Depois, quando a doação da
alma é realizada inteiramente, é o Senhor que a invade. Realiza-se a união, a
qual São João da Cruz chama união de transformação. Magnífica exposição prática
da união da alma com o Senhor, neste caminhar para Deus, através da dádiva
total da própria vontade, e neste caminhar Dele ao seu encontro, elevando-a e
atraindo-a a Si!
Compreende-se que para
chegar a esta dádiva total de nós mesmos ao Senhor – dádiva que se realiza no
sofrimento – seja necessária muita energia:
O pão nosso de cada dia nos dai hoje
– pão que venha
fortificar-nos a alma.
Perdoae-nos as nossas ofensas:
Quão grande é a
necessidade de perdão paras a alma que vive na intimidade do Senhor! É fácil
cair em tantas pequenas faltas! Mas é próprio da alma contemplativa pôr uma
delicadeza extrema em evitá-las, especialmente quando se trata da caridade, e
pôr uma delicadeza igual em perdoar as indelicadezas que recebe:
Como nós perdoamos a quem nos tem ofendido:
Uma alma contemplativa
não se ofende com a falta de atenções.
Trazemos, assim, o nosso
tesouro em vasos frágeis e temos, por isso, necessidade de ser continuamente
protegidos:
E, não nos deixeis cair em tentação.
Santa teresa ensina que o
remédio contra o assalto das tentações é o amor e o temor a Deus (Caminho, XL). Temor filial, como diz São
João da Cruz (Cântico espiritual,
XXVI, 3), temor perfeito de filho que tem a sua origem no amor para com o Pai.
Para não desgostar o seu pai Celeste, um filho de Deus repara sempre onde há de
pôr os pés e recorre a bons guias para não sair nunca da boa estrada.
Mas livrai-nos do mal,
Liberta-nos deste mundo,
para alcançar-mos a pátria onde só reina o bem.
E, também para isso, é preciso possuir o
impulso do maior abandono: “Estou de tal modo submetida à Sua divina vontade
que não desejo viver nem morrer” – diz a Santa, embora desejando o Senhor, e
desejando-O principalmente naqueles momentos em que tem a intuição dum amor
ainda maior que, “para lá das grades”, a espera: então o seu desejo torna-se
iniludível. “ Se suspiro pela morte, é apenas naqueles breves instantes em que
anseio por ver Deus” (Santa Teresa de Jesus, Recordações Espirituais, VI, 7).
Trata-se dum comentário
ao Pater Noster verdadeiramente
contemplativo. Nele é traçado um ideal de vida interior. Seguindo-o, a alma
pode ascender à contemplação, tornar-se amiga íntima do Senhor e atrair as Suas
graças sobre a Igreja.
O Caminho da Oração - Comentário ao "Caminho da Perfeição" de Santa Teresa de Ávila, Gabriel de Santa Maria Madalena.
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