"Qualquer pessoa que tenha tido a infelicidade de conversar com alguém que se encontra à beira da loucura, ou já bem dominado por ela, sabe perfeitamente que a qualidade mais sinistra das pessoas que se encontram nesse estado é uma terrível precisão de pormenor, o estabelecimento de ligações entre as coisas, num mapa mais complexo que um labirinto. Se o leitor discutir com um louco, é muito provável que seja vencido por ele; é que a mente do louco progride muito mais depressa do que a mente do leitor, pelo simples motivo de que não se deixa deter por todos os constrangimentos que acompanham a racionalidade. Ele não se deixa embaraçar pelo sentido de humor, nem pela amabilidade, nem pelas certezas da experiência; e mostra-se tanto mais lógico, quanto mais perdeu determinadas emoções que o homem são possui. Na verdade, a expressão por que normalmente se designa a loucura é, neste aspecto, enganadora. É que o louco é a pessoa que perdeu tudo menos a razão.

A explicação que um louco dá de uma coisa é sempre completa e, de um ponto de vista puramente racional, muitas vezes satisfatória. Ou, para sermos mais rigorosos, as explicações de um louco, se não são conclusivas, são pelo menos irrespondíveis.

Se uma pessoa afirma (por exemplo) que é vítima de uma conspiração, a única maneira de o contradizer é argumentar que toda a gente nega fazer parte dessa conspiração; ora, isso é exactamente o que qualquer conspirador faria.

Ou, então, se um homem afirma que é Jesus Cristo, não se pode responder que o mundo nega que ele seja um ser divino; porque o mundo também negou que Cristo fosse Deus.

 Assim, pois, a explicação dessa pessoa louca abarca, quer os factos, quer a explicação que o leitor dá desses factos.

E, contudo, essa pessoa está enganada. Mas, se tentarmos perceber exactamente porquê, não conseguiremos descobri-lo com tanta facilidade como pensávamos. Talvez a maneira mais adequada seja afirmar que a mente dessa pessoa se move num círculo, um círculo perfeito, é certo, mas muito estreito. Um círculo pequeno pode ser tão perfeito como um círculo grande, mas embora seja igualmente perfeito, não é tão amplo como o círculo grande.

Assim também a explicação do louco é tão completa como a explicação da pessoa sã; mas não é tão ampla como a da pessoa sã. Uma bala de canhão é tão redonda como o mundo, mas não é o mundo.

Existe na explicação do louco aquilo a que se chame uma universalidade limitada; existe uma eternidade pequena e apertada; encontramo-la também em muitas das religiões e heresias modernas.

Ora, em termos externos ou empíricos podemos dizer que o sinal mais forte e inequívoco da loucura é esta combinação de completude lógica e contracção espiritual.

A teoria do lunático explica um amplo número de coisas, mas não explica duma forma ampla.

Ele encontra-se fechado na prisão, limpa e bem iluminada, da ideia fixa, dolorosamente orientada para uma única questão, desprovido da hesitação e da complexidade que caracterizam as pessoas sãs.

Assim sendo, se o leitor, ou eu, tivermos que lidar com uma mente que esteja a tornar-se doentia, a nossa principal preocupação não há-de ser fornecer-lhe argumentos, mas arejá-la, convencê-la de que há coisas mais limpas, mais frescas, mais importantes no exterior daquele sufoco que é o seu acanhado círculo de pensamento.

A única coisa que poderá salvar aqueles cuja morbidez tem o seu quê de mania, é uma fome cega – uma fome selvática – de normalidade. Uma pessoa não consegue libertar-se de uma doença mental por via do raciocínio; porque é precisamente o órgão do raciocínio que está doente, que se tornou ingovernável e, por assim dizer, independente. Por isso, a única maneira de o salvar é através da vontade ou da fé. Se for a mera razão a funcionar, só conseguirá funcionar no círculo habitual; e a pessoa continuará a andar às voltas no interminável círculo da lógica, da mesma maneira que uma pessoa que se meta numa carruagem de uma linha circular do metropolitano andará às voltas, a não ser que realize o vigoroso acto voluntário, o acto místico, que consiste em sair do metropolitano. Neste caso, só a decisão conta; é preciso fechar definitivamente uma porta. Curar um louco não é argumentar com um filósofo; é expulsar um demónio.

Um exemplo óbvio, desta loucura é o materialismo. Como explicação do mundo, o materialismo possui uma espécie de simplicidade insana. Possui precisamente a qualidade do argumento do louco; temos imediatamente a sensação de que abarca tudo e a sensação de que não abarca coisa nenhuma. Um materialista sincero e competente compreende tudo, mas nem tudo é para ser compreendido; o cosmos dele até pode ser completo, com todos os rebites e rodas dentadas, mas é um cosmos mais pequeno do que o nosso mundo. À semelhança do lúcido esquema do louco, o esquema do materialista não tem em conta as coisas reais que existem no mundo real, como os povos que combatem, as mães que sentem orgulho nos seus filhos, o primeiro amor, o medo do mar. O mundo é tão grande e o cosmos do materialista é tão pequenino. As principais deduções do materialista destroem-lhe a humanidade; não me refiro apenas à simpatia, refiro-me à esperança, à coragem, à poesia, a tudo aquilo que é humano.

Assim, pois, considerado como personagem, o materialista tem os fantásticos contornos da figura do louco. Ambos assumem uma posição que é, simultaneamente irresponsável e intolerável.

 

 

G. K. Chesterton, ORTODOXIA.

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