“Para
mortificar e manter em perfeita calma as quatro paixões naturais (prazer,
ambição, temor e dor), de cuja paz e tranquilidade nascem inumeráveis bens, o
remédio universal é o seguinte - o qual é fonte de mérito imenso e de grandes
virtudes:
A alma deve
ser propensa: não ao mais fácil, mas ao mais difícil; não ao mais saboroso, mas
ao mais insípido; não mais deleitoso mas ao mais desagradável; não ao que
consola, mas ao que desconforta; não ao repouso, mas à fadiga; não ao mais, mas
ao menos; não às coisas nobres e preciosas, mas às mais vis e desprezíveis; não
a querer alguma coisa, mas a não querer nada. Não procure a alma para si o que
há de melhor nas coisas, mas o que há de pior; e deseje por amor a Cristo ser
pobre, nua e vazia de tudo o que existe neste mundo.”
São João da
Cruz, Subida, XIII, 4-5.
Eis como
Santa Teresa nos apresenta a atmosfera da contemplação: “ os que caminham por
esta via, não levam uma cruz mais leve, e ficaríeis cheias de espanto ao ver os
caminhos e os modos pelos quais Deus os conduz… Sei que são intoleráveis os
trabalhos que Deus dá aos contemplativos” (XVIII, 1).
Os
sofrimentos dos contemplativos são sempre grandes. A alma que se queira tornar
contemplativa deverá aprender a amar o sofrimento. Mas, não é fácil; é difícil
acolher continuamente todos os sofrimentos: aquele sofrimento que se renova
sempre, do qual não nos podemos libertar, que pesa continuamente sobre nós.
Quando se tropeça em coisas que nos desgostam, quando se choca com pessoas que
nos contradizem, que nos ferem, que nos aborrecem, é difícil estarmos sempre
serenos, alegres, na disposição de acolher de boa vontade todas as
circunstâncias que nos fazem sofrer, pensando que tudo é querido por Deus para
nosso bem.
Uma alma
contemplativa, que entra na intimidade de Deus, tem sempre a intuição de que
Jesus atrai para o caminho da cruz a alma que quer unir a Si: uma esposa (a
alma) não pode deixar de seguir o destino do esposo (Cristo), participando da
sua vida dará complemento à Sua paixão. Jesus conta com aquela alma para a
fazer participar nos Seus sofrimentos e na Sua obra redentora. Não é possível
chegar à intimidade com Deus sem amar muito a Sua cruz: se nos queremos tornar
contemplativos, devemos sofrer.
Viver a
nossa vida com tudo aquilo que ela tem de cruciante, aceitá-la tal como é, tal
como vem até nós, tal como é determinada pelas circunstâncias! Assim se salvam
as almas., assim se vive pelos interesses do Senhor. E aqui, manifesta já Santa
Teresa um pensamento sobre o qual há-de insistir mais profundamente quando
fizer o comentário às palavras do Pai
Nosso: Seja feita a Vossa vontade:
“aqueles que Deus ama, condu-los pela via dos padecimentos, que são tanto
maiores quanto mais Ele os ama”(XXXII,7).
O Caminho da
Oração – Comentários ao “Caminho da Perfeição” de Santa Teresa de Ávila, Gabriel
de Santa Maria Madalena
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