O Concílio Vaticano II, socialmente e com carácter
oficial, cometeu o mesmo pecado que o religioso que, deixando de viver para
Cristo, começa a olhar para si próprio. De Facto, Paulo VI e João Paulo II
definiram muitas vezes o Concílio como uma “tomada de consciência” que a Igreja
fez de si mesma. Como se até então Ela tivesse andado esquecida do seu próprio
ser. Si bem que esta maneira de falar seja própria do psicologismo do
pensamento moderno, não deixa de ter fundamento na realidade. Com efeito, o
verdadeiro religioso deve viver esquecido de si próprio e voltado totalmente
para Nosso Senhor; e a sua fé ficará em risco se começar a prestar atenção a si
mesmo. Este foi, precisamente o pecado do Concílio: deixar de se orientar para
Deus e volver um olhar satisfeito para a sua própria humanidade. Se é certo que
a nossa humanidade foi feita à imagem e semelhança de Deus, ai de nós se o
nosso coração se detiver na “imagem” e não segue o seu Criador. Este, e não
outro, foi o pecado que levou Lucifer à perdição.
Se se vir com atenção, assim como à religião
católica se chama com toda a propriedade “Cristianismo”; assim também à nova
religião conciliar se deve chamar “humanismo”.
O catolicismo consiste numa religião que oriente
todas as coisas a Jesus Cristo, enquanto “Imagem de Deus invisível, Primogénito
de toda a criação, porque nEle foram criadas todas as coisas” (Col 1,15),
rendendo culto a Deus “ per ipsum, et cum
ipso, et in ipso” (Canon Romano). Se bem que Jesus Cristo é Deus e homem, e
como homem nos facilita o acesso ao conhecimento e amor de Deus, no entanto a
nossa religião não é idolátrica, porque a humanidade de Nosso Senhor está
assumida na Pessoa do Verbo, Imagem consubstancial da Divindade. De forma que a
nossa religião é certamente “cristianismo”, pois o culto de Cristo é o Culto de
Deus em si mesmo.
Formalmente considerada, a novidade conciliar,
consiste numa actitude religiosa que reorienta todas as coisa ao homem,
enquanto imagem de Deus e primogénito de toda a criação, porque – segundo a
inversão do personalismo conciliar – para ele foram criadas todas as coisas. A Pessoa
humana seria a produção e emanação das Pessoas divinas na qual Deus ficaria
realizado como criador; de maneira que o Concílio ensina a render culto ao
homem, porque supostamente por ele, com
ele e nele se poderia glorificar Deus. Por isso é muito correcto chamar “humanismo” à religião conciliar, tal como à religião
católica se chama “Cristianismo”. O próprio Jesus Cristo é avaliado pelo
concílio enquanto homem perfeito e não tanto porque seja Deus.
O que é preciso realçar é que, ao contrário do
cristianismo, o humanismo conciliar é idolátrico,
porque a humanidade adorada pelo Concílio não está em união hipostática com a
divindade.
Se considerarmos, pois, a modalidade de religião
introduzida pelo concílio, segundo a sua forma própria, temos de dizer que se trata
duma nova religião que adora o Homem como realidade suprema da Criação e do
criador. Por outras palavras, estamos perante “a Religião do Homem”.
Padre Álvaro Calderon, Prometeu, A Religião do Homem, Ensaio Sobre a Hermenêutica do Concílio Vaticano II
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