A intrínseca contradição do humanismo leva-o a disfarçar-se
com a mentira da democracia. Tanto a contradição como a mentira são flagrantes,
no entanto mantêm-se por um equilíbrio de tenções que não deixa de ter algo de
misterioso.
O humanismo quer liberdade e para isso sacudiu o
jugo da autoridade. Conseguiu-o totalmente, no que diz respeito à autoridade eclesiástica,
com a Reforma protestante; e em relação à autoridade política com a revolução
francesa.
Porém, sem a autoridade de um Bom Pastor as ovelhas são devoradas pelos lobos ou seja, para as elas, com o humanismo, rapidamente se acaba a liberdade.
A Contradição
é, pois, evidente: não pode haver liberdade para todos sem uma autoridade que
proteja o bem comum. Mas, como o humanismo deixando de servir a Deus, serve a
Mamom/o dinheiro, a liberdade que promove só pode ser a dos lobos, ou seja,
dos mais ricos e poderosos.
E, para disfarçar este facto, inventou a democracia.
Torna-se assim, evidente a mentira da democracia:
não é o governo de todos, para todos, por todos, mas o governo dos lobos com
pele de cordeiro que racionalizam (gerem) o almoço (o roubo) para não acabarem totalmente
com o rebanho (para que não morra à fome).
Como, portanto, os lobos, em certa medida, não deixam de proteger o
rebanho, ainda que em proveito próprio, as ovelhas elegem-nos quanto mais não
seja por hábito, por medo de lobos imaginários e por esperança de que enquanto umas
são comidas as outras vão sobrevivendo.
A democracia é, pois, uma mentira que se mantem
porque todos querem acreditar nela:
Os lobos com pele de cordeiro (os plutocratas),
querem acreditar nela porque lhes permite dominar o rebanho sem nunca serem
responsabilizados.
As ovelhas com dentes de lobo (as ovelhas, as
que colaboram com os lobos), querem acreditar nela porque o sistema as beneficia.
As ovelhas querem acreditar nela, porque a verdade
as angustia.
Padre Álvaro Calderon, Prometeu, A Religião do Homem, Ensaio Sobre a Hermenêutica do Concílio Vaticano II
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