Angelica e Tancredi passavam naquele momento diante deles, a mão direita enluvada dele apertando a cintura dela, de braços estendidos e compenetrados, os olhos de cada um fixos no do outro. O negro do fraque dele e o rosa do vestido dela, misturados, formavam uma estranha joia. Eles ofereciam o espectáculo mais patético de todos, o de dois jovens apaixonados dançando um com o outro, cegos aos recíprocos defeitos, surdos aos avisos do destino, com a ilusão de que todo o caminho da vida será liso como o soalho do salão, actores ignaros a quem o encenador dá a representar o papal de Romeu e Julieta omitindo a cripta e o veneno, já previstos no guião. Nem um nem outro eram bons, cada um calculista e inchado de objectivos secretos; mas ambos eram queridos e comoventes enquanto as suas nada límpidas mas ingénuas ambições eram apagadas pelas palavras de jocosa ternura que ele lhe murmurava ao ouvido, pelo perfume dos cabelos dela, pelo recíproco abraço daqueles corpos destinados a morrer.

Os dois jovens afastaram-se, passaram outros pares, não tão belos, mas igualmente comoventes, imersos todos na sua efémera cegueira. Dom Fabrizio sentiu passar-lhe a dureza do coração: o enfado dava lugar à compaixão por estes efémeros seres tentando gozar do exíguo raios de luz que lhes é concedido entre duas trevas, antes do berço e após os últimos estertores. Como era possível enfurecer-se contra quem, pode-se ter a certeza, terá de morrer?

Il Gattopardo, Giuseppe Tomasi di Lampedusa

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