O INÍCIO DA CONFUSÃO

Lendo, sobre o Concílio Vaticano II, “Uma História Nunca Escrita”, de Roberto de Mattei, chamaram-me a atenção duas séries de fenómenos que se repetiram ao longo de todo o Concílio, ao ponto de marcarem para sempre a sua fisionomia no quadro da história das ideias no século 20.

Por um lado, aparece o contraste entre a malícia e a destreza política da minoria progressista, cujo activismo incansável venceu todas as resistências e impôs à assembleia praticamente tudo o que desejava; e, por outro, a ingenuidade patética dos conservadores, que chegaram ali despreocupados, sem ter ideia de que os modernistas se estavam fazendo de mortos para assaltar o coveiro.

 Na verdade, a maioria do episcopado acreditava piamente que o modernismo teológico condenado no Syllabus de Pio IX em 1864 estava morto e enterrado. O Concílio mostrou que ele estava vivo, reaparecendo, com força avassaladora e reduzindo os oponentes ao estado de estupor paralisante, de indignação impotente, que a Bíblia descreve como “escândalo”.

Mas esse fenómeno, por mais chocante que pareça, não foi propriamente novidade: apenas reencenou, à escala eclesial, o crónico triunfalismo suicida dos conservadores em geral – não só os religiosos –, que universalmente confundem a teoria com a prática, a superioridade abstracta com a supremacia de facto; porque tinham impugnado os erros do adversário, acreditaram que com isso o tinham removido do cenário histórico, muito se surpreendendo quando o bicho sai do túmulo com um sorriso de escárnio e os fez de otários pela enésima vez.

 

Se a vida fosse um tratado de lógica, as ideias cretinas não teriam nela lugar; não existiriam revolucionários, demagogos insanos, inventores de sociedades paradisíacas que invariavelmente se transmutam, com o tempo, em infernos sangrentos. Mas, a vida, é um teatro do absurdo, onde as promessas enganadoras são justamente as mais persuasivas e onde desprezar os conselhos da sabedoria parece ser a obrigação número um do ser humano.

Na Igreja ou fora dela, os revolucionários e conservadores esmeram-se em ignorar essa obviedade, os primeiros buscando incansavelmente novos e sofisticados motivos para se deixarem seduzir pela serpente, os segundos apostando que, deixada a si mesma, sem advertências especiais, desta vez Eva rejeitará a maçã.

O partido progressista, é verdade, chegou ali armado de um instrumental dialéctico mais aprimorado e subtil, mas de uma dialéctica perversa, que dando-se o ar inocente de quem seguia a tradição católica no instante mesmo em que fazia tudo para a destruir.

 A favor dos modernistas, deve-se reconhecer também que descreviam correctamente o estado das coisas na sociedade moderna, mas conferindo-lhe indevidamente o valor de princípio fundador, de fonte doutrinal, consagrando em vez da Revelação a autoridade do facto consumado. Por exemplo: o planeta está superpovoado? Suprima-se a primazia da procriação na doutrina católica do matrimónio. Os comunistas dominaram metade do mundo? Passemos a afagá-los, esquecendo tudo o que os papas disseram contra eles.

E o que fizeram os conservadores? Limitaram-se a repetir mecanicamente a doutrina de sempre, opondo-a às pretensões modernistas como se o erro e a Verdade estivessem no mesmo plano, como se fossem programas antagónicos de partidos políticos. Não fizeram o menor esforço para transcender criativamente as pretensões dos modernistas, provando em acto a superioridade da doutrina tradicional ao conseguirem explicar através dela os vícios da realidade sociocultural moderna da qual seus adversários se faziam apologistas deslumbrados.

 A malícia de uns e a inércia intelectual de outros fizeram do Concílio o toque inaugural da confusão contemporânea.

Olavo de Carvalho

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